Brasília, 08/03/2026

Efeito Bad Bunny alerta a direita brasileira

Luiz Carlos Bordoni (*)

Essa crise Bad Bunny x Trump encaixa como uma metáfora perfeita do dilema atual da direita brasileira — especialmente daquela que ainda bebe direto na fonte do trumpismo. Cultura virou política (e a direita ainda não entendeu isso) e o episódio revela algo que muitos estrategistas no Brasil já sussurram nos bastidores: a guerra cultural saiu do controle.

Quando Bad Bunny ocupa o centro do debate político sem ser político, e Donald Trump reage como comentarista irritado — e não como estadista —, o jogo já foi perdido.

Trump erra duplamente. Primeiro, por subestimar a força simbólica da cultura pop, especialmente entre latinos. Segundo, por superestimar a sua capacidade de confronto permanente, acreditando que todo embate rende engajamento positivo. Não rende
mais.

E isso, politicamente, reflete mundo afora. Na direita brasileira, pelo que lemos, o incômodo é real — e crescente. Primeiro, no campo pragmático. Trump virou um passivo eleitoral. Seu desgaste cultural e moral pode contaminar aliados simbólicos no Brasil,
sobretudo entre jovens e eleitores urbanos.

Segundo, erra estrategicamente. A política do “inimigo permanente” cansa. Ídolos culturais não são adversários convencionais; atacá-los amplia sua força. Terceiro, peca eleitoralmente. Os latinos nos EUA hoje cumprem papel semelhante ao eleitor periférico no Brasil — quem ignora esse campo, perde eleição. Aí, o paralelo é óbvio: quando a política não dialoga, a música, o esporte e a arte ocupam o vácuo.

O alerta que muitos preferem ignorar

O show de Bad Bunny não foi só entretenimento. Foi ato político sem palanque, algo que a direita tradicional não sabe enfrentar.
E quando Trump reage mal, ele transforma um artista em símbolo de resistência, algo que historicamente sempre favorece o lado
contestador.

Para a direita brasileira mais lúcida, o episódio deixa um recado incômodo, porém claro: governar pelo confronto simbólico permanente isola, radicaliza e, no fim, perde maioria. Cultura não se enfrenta no grito. Quem não entende isso, governa
falando sozinho — até o silêncio das urnas responder.

Luiz Carlos Bordoni é Jornalista

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