Brasília, 07/03/2026

Entre cinzas e cálculos

Luiz Carlos Bordoni

O fato de Lula ainda não ser candidato oficial não o coloca fora do alcance da Justiça Eleitoral. No Brasil, a campanha pode começar antes do registro — e terminar antes da urna. O desfile passou, mas o julgamento pode apenas estar começando. Enredo, alegorias, refrões repetidos como mantra, imagens projetadas ao país inteiro. A oposição sustenta que o samba atravessou a linha da homenagem e pisou no território da promoção antecipada.

Na passarela de Têmis, não se julga fantasia — julga-se contexto. E contexto, em ano eleitoral, é pólvora fina. Representações já foram protocoladas. O argumento é simples: houve personalização política travestida de cultura. Pode colar ou pode se dissolver na jurisprudência. Mas o risco foi calculado — e assumido.

Nos bastidores, os flavistas torcem para que a quarta-feira seja de cinzas lulistas. Sonham com um impedimento precoce, uma exclusão antes mesmo da largada oficial. Querem que o confete vire prova, que o tamborim soe como pedido explícito de voto. Apostam que a ressaca jurídica seja mais forte que a euforia carnavalesca.

Enquanto isso, os blocos da oposição entram em vigília. Começa a quarentena política — aquele período em que ocupantes de cargos executivos terão de decidir se deixam o posto para disputar as urnas. É a pré-temporada eleitoral. Quem fica? Quem sai? Quem arrisca? Cada movimento é cálculo. Cada silêncio é estratégia.

Nas redes sociais, a especulação ferve. E se Lula, impugnado por causa do samba, não for ao baile das urnas? Quem herda o eleitorado? Quem reorganiza o tabuleiro? O Brasil político não dorme — ele ensaia.

E na ressaca da folia, movem-se os donos dos partidos. Valdemar Costa Neto e Gilberto Kassab observam o cenário como mestres-sala do pragmatismo. Não repartem poder com facilidade, mas apreciam quem sabe dividir dividendos eleitorais. Para eles, ideologia é acessório; sobrevivência é regra.

Se houver impedimento, recomeça o leilão das alianças. Se não houver, intensifica-se a polarização. Em qualquer hipótese, a quaresma promete ser longa. O Carnaval acabou, mas a política brasileira raramente conhece abstinência.

Entre cinzas e cálculos, o país se prepara para o próximo desfile — não na Sapucaí, mas na urna. E ali, diferentemente do samba, não vence quem canta mais alto, mas quem soma mais votos.

Luiz Carlos Bordoni é Jornalista

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