Brasília, 16/06/2026

Entre o alívio imediato e a conta futura

Luiz Carlos Bordoni (*)

O Brasil chegou a um ponto crítico: quase metade da população adulta está inadimplente. São mais de 80 milhões de brasileiros com o nome restrito, pressionados por juros altos, inflação persistente e renda comprimida. Diante desse cenário, o governo busca alternativas para aliviar o sufoco — entre elas, a ampliação do crédito consignado e a liberação de recursos do FGTS para pagamento de dívidas.

Do ponto de vista econômico, as medidas têm lógica. Trocar dívidas caras por crédito mais barato pode reduzir o peso dos juros no orçamento das famílias e reativar o consumo no curto prazo. Em um ambiente de desaceleração, isso ajuda a girar a economia e melhorar indicadores rapidamente. Não é uma solução inédita, nem isolada no mundo.

Mas o problema está no horizonte dessas decisões.

Ao facilitar o crédito, aumenta-se o comprometimento da renda futura. Ao liberar o FGTS, reduz-se a poupança do trabalhador — justamente aquela que deveria protegê-lo em momentos de desemprego. O que se apresenta como solução pode, na prática, apenas empurrar o problema adiante, criando um ciclo contínuo de endividamento e dependência de novos socorros.

Há ainda o componente político, impossível de ignorar. Medidas que colocam dinheiro no bolso ou aliviam dívidas têm efeito imediato e dialogam diretamente com o eleitor. São populares, visíveis e de retorno rápido. O risco é quando o curto prazo eleitoral se sobrepõe à responsabilidade fiscal e estrutural, transferindo custos futuros para o Estado e, no fim, para o contribuinte.

O país não precisa apenas de crédito mais fácil. Precisa de renda consistente, juros sustentáveis e educação financeira. Sem isso, qualquer alívio será temporário.

E, como quase sempre acontece por aqui, a conta não desaparece. Ela só muda de bolso.

(*) Luiz Carlos Bordoni é Jornalista

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