
Brasil de Fato – A prisão preventiva do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), decretada neste sábado (22) pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, coloca a extrema direita brasileira em seu momento mais frágil desde 2018 e encerra qualquer possibilidade de o bolsonarismo se projetar novamente no Executivo federal. A avaliação é do cientista político e professor Paulo Niccoli Ramirez. Para ele, a detenção reforça o fortalecimento institucional do país e revela o desgaste político da direita no Congresso.
“Agora, o que está decretado é o fim do bolsonarismo em termos de candidatura à Presidência”, afirmou em entrevista à edição especial do Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato. Segundo ele, além da inelegibilidade do ex-presidente desde 2023, a associação pública a Bolsonaro se tornou um fardo. “Qualquer um que se candidate dizendo que é bolsonarista terá praticamente presente na sua testa a ideia de que é um candidato golpista, é um candidato antidemocrata”, analisa.
O professor avalia que, com a prisão, “a direita sai absolutamente enfraquecida”, acrescentando que 2025 foi “o pior ano do Congresso em termos de imagem negativa, exatamente quando temos a maior hegemonia dos bolsonaristas”. Ele cita ainda derrotas sucessivas da extrema direita e do Centrão, como a rejeição de mudanças no Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), o fracasso da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Anistia e a tentativa frustrada de impedir aumento de impostos sobre os mais ricos.
Para Ramirez, “o estrago está totalmente consolidado”. Ele defende que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) use o contexto para fortalecer a sua base legislativa. “É o melhor momento político para as esquerdas fortalecerem a sua presença dentro do Legislativo, não só no nível federal, mas também os estaduais e, daqui a dois anos, os municipais também” Ele acredita que, depois desse episódio, “continuaremos a ter muitos bolsonaristas, mas certamente não será a mesma hegemonia de hoje”.
O cientista político avalia que a prisão demonstra que as instituições democráticas reagiram dentro dos marcos legais. “O Brasil, a democracia brasileira sai fortalecida. É a primeira vez que se condena golpistas nesse país”, diz. Ele ressalta que a decisão não deve ser atribuída ao governo Lula, “mas sim ao STF, que deu ao Bolsonaro todas as possibilidades viáveis de defesa”
‘Plano pré-fabricado’ para fuga
A prisão ocorreu em meio ao que Paulo Nicoli entendeu como um movimento coordenado para uma fuga, semelhante ao do deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ), também condenado, que está foragido. “Provavelmente Bolsonaro fosse seguir o mesmo destino”, afirma.
Para o professor, a tentativa de romper a tornozeleira eletrônica, que motivou a nova decisão do STF, indica que havia “um cenário pré-fabricado” para que o ex-presidente escapasse da prisão domiciliar antes da consolidação de sua condenação. “Provavelmente Bolsonaro vai dar alguma desculpa esfarrapada, dizendo que acabou a bateria, ou então que precisava tomar banho, trocar pilha, qualquer coisa do tipo”, prevê Ramirez.
O cientista político reforça, no entanto, que nada justifica a violação da tornozeleira. “Não podemos ser ingênuos achando que a tentativa de burlar uma tornozeleira era para trocar pilha”, diz. Ele afirma ter pesquisado os procedimentos do equipamento e destaca que a Polícia Federal fornece “todas as instruções possíveis e imagináveis: tem um manual, tem tudo que você possa imaginar para o funcionamento dessa tornozeleira”.
A tentativa de fuga, segundo ele, reitera o modus operandi do ex-presidente. “Além de ter tentado dar o golpe em 2023, tentou burlar uma decisão da Justiça, que era a sua prisão domiciliar”, lembra. A nova violação se soma ao plano de pedir asilo político à embaixada argentina, apontado por Moraes.


