Luiz Carlos Bordoni (*)
Há algo que começa a inquietar parte da sociedade brasileira — e não é histeria, nem teoria conspiratória. É percepção. O crime organizado deixou de ser apenas um problema policial. Tornou-se um problema econômico, político e institucional. Facções controlam territórios, influenciam cadeias produtivas, intimidam empresários, infiltram contratos, dominam serviços informais e, em alguns lugares, exercem poder paralelo.
Quando essa percepção cresce, nasce o temor de uma “síndrome do México”. Não porque o Brasil já esteja ali, mas porque ninguém quer chegar perto desse cenário.
No México, cartéis não são apenas grupos criminosos. Tornaram-se estruturas de poder que disputam influência com o próprio Estado. O governo existe, as instituições funcionam, mas a presença do crime organizado é um fator real no equilíbrio de forças.
O Brasil não está nesse ponto. Mas a pergunta que ecoa é: estamos atentos o suficiente?
A votação simbólica do chamado PL Antifacção, conduzida pelo presidente da Câmara, Hugo Motta, trouxe um elemento preocupante. Não apenas pelo conteúdo — que excluiu a cobrança de contribuições do setor de apostas que poderia destinar bilhões à segurança pública — mas pelo método.
Segurança pública não é tema secundário. Não é pauta protocolar. Não pode ser resolvida no automático.
Quando meia dúzia de líderes decide, simbolicamente, um tema que impacta diretamente a capacidade do Estado de enfrentar facções, milícias e o crime organizado, a mensagem que chega à população é ruim.
E a coincidência simbólica pesa: o país acompanhava desdobramentos do caso do assassinato da vereadora Marielle Franco — um crime que revelou conexões perigosas entre milícias e política.
A sociedade não é ingênua. Ela conecta os pontos. O que gera indignação não é apenas a decisão legislativa. É o conjunto: crescimento das facções, infiltração em setores econômicos, autoridades investigadas por corrupção, falta de debate transparente, decisões aceleradas em temas estruturais.
O resultado é corrosivo: erosão da confiança e confiança é a base invisível da democracia.
O Brasil ainda tem instituições atuantes. Polícia Federal investiga. Ministério Público denuncia. O Judiciário julga. A imprensa expõe. O país não está capturado.
Mas há um risco silencioso: a naturalização. Naturalizar que o crime organizado avance. Naturalizar que a política trate segurança como pauta menor. Naturalizar decisões simbólicas sobre temas estruturais.
Segurança pública não é bandeira ideológica. É cláusula civilizatória. Quando o Estado demonstra hesitação — ou quando a política parece distante da gravidade do problema — o vácuo é ocupado. E o crime organizado adora vácuos.
O Brasil ainda é uma democracia funcional. Ainda temos instituições que operam. Ainda há investigação, denúncia e julgamento. Não vivemos sob domínio formal de facções.
Mas democracias não colapsam apenas por golpes. Elas podem se desgastar por omissão.
O perigo não está apenas no avanço do crime organizado. Está na banalização da resposta política. Está na pressa em decidir o que exige debate. Está na indiferença diante do que mais aflige o cidadão comum: o medo.
Quando segurança pública vira tema secundário, o recado que se transmite é devastador. O crime organizado não cresce só pela força das armas. Cresce pelas brechas. Cresce pelos silêncios. Cresce quando percebe hesitação.
E o que realmente inquieta não é a comparação com o México. É a pergunta que começa a surgir nas ruas: quem está, de fato, no controle?
Segurança pública não pode ser pauta circunstancial. É fundamento de Estado. É garantia de liberdade. É condição para o desenvolvimento. Sem ela, não há economia forte. Sem ela, não há confiança. Sem ela, não há democracia robusta.
O Brasil precisa decidir se enfrentará o problema como prioridade nacional ou se continuará tratando o tema como assunto lateral. Porque, quando o Estado hesita, alguém ocupa o espaço e esse alguém não costuma usar terno — usa fuzil.
(*) Luiz Carlos Bordoni é Jornalista
