Luiz Carlos Bordoni (*)
O feminicídio e a violência contra mulheres indígenas no Brasil revelam um cenário grave e, muitas vezes, invisível. Dados apontam um crescimento de até 500% nos homicídios entre 2003 e 2022, atingindo principalmente jovens, solteiras e com baixa escolaridade. Entre 2014 e 2023, os registros de violência aumentaram 258%, sendo que metade das vítimas tem menos de 14 anos. A violência sexual é a que mais cresce e 79% das vítimas são menores de idade.
A brutalidade não se limita aos números. Relatos recorrentes apontam abusos cometidos dentro do próprio ambiente familiar, com agressões físicas e psicológicas, além de estupros. Em muitas regiões, a presença de garimpeiros, madeireiros e fazendeiros intensifica esse quadro, com denúncias de violência sexual sistemática contra mulheres indígenas em seus territórios. O problema, portanto, vai além da segurança pública e se conecta diretamente à disputa por terra e à violação de direitos históricos.
As causas são múltiplas e profundas. O confinamento em reservas, a desarticulação dos modos de vida tradicionais e a influência de estruturas patriarcais contribuem para o aumento da violência doméstica. Soma-se a isso o racismo institucional, que se manifesta na dificuldade de acesso à justiça, na recusa de atendimento e na ausência de políticas públicas adequadas. O medo, o isolamento e a desconfiança fazem com que muitos casos sequer sejam denunciados, alimentando um ciclo de invisibilidade e impunidade.
Mesmo diante desse cenário, mulheres indígenas têm se organizado para resistir. Grupos como os das comunidades Guarani e Kaiowá promovem assembleias, denunciam abusos e lideram mobilizações nacionais, como marchas em Brasília. Casos emblemáticos, como o assassinato de Ereni Benites ou a violência contra meninas em Dourados, expõem a urgência de ações concretas. Mais do que estatísticas, são histórias de vidas interrompidas que exigem do Estado respostas efetivas e, da sociedade, atenção e compromisso com justiça e dignidade.
(*) Luiz Carlos Bordoni é jornalista
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