Brasília, 29/10/2026

Flávio: de presidente autoproclamado a líder por conta própria 

 Luiz Carlos Bordoni

O Brasil vive momentos que, não fossem tão preocupantes, poderiam inspirar uma comédia política. Derrotado na eleição presidencial, Flávio Bolsonaro deixou o país, desembarcou nos Estados Unidos e divulgou uma carta apresentando-se como o verdadeiro presidente eleito do Brasil.

Pouco depois, mudou o documento. Onde estava escrito “verdadeiro presidente eleito”, passou a constar “líder do Brasil”. Mudou o título. Não mudou a pretensão. Afinal, quem conferiu a Flávio Bolsonaro o direito de falar em nome de toda a nação?

O senador recebeu quase 60 milhões de votos. É uma votação extraordinária, que precisa ser respeitada. Representa uma parcela expressiva da sociedade brasileira, com direito à representação política e à defesa de suas convicções, mas não representa a totalidade do país e, principalmente, não lhe deu a vitória eleitoral.

Numa democracia, ninguém se torna presidente por autoproclamação. Tampouco se transforma em líder nacional simplesmente porque resolveu atribuir a si próprio essa condição.

Flávio denuncia fraude eleitoral, acusa ministros do Supremo Tribunal Federal e sustenta que houve interferência indevida no processo de votação. São acusações graves, que precisam ser examinadas pelos órgãos competentes. Entretanto, a sua carta não apresenta provas capazes de demonstrar a fraude que denuncia.

Recorrer à Justiça é um direito. Questionar decisões judiciais também, mas transformar suspeitas em verdades definitivas, sem comprovação, contribui para alimentar a desconfiança nas instituições.

E há aí uma contradição que merece atenção. Flávio anuncia que comandará a oposição brasileira a partir dos Estados Unidos. Afirma que dirá aquilo que deputados, senadores e governadores aliados não podem dizer e que assumirá riscos que eles não podem correr.

Ora, desde quando os representantes eleitos pelo povo brasileiro precisam de autorização de um comandante instalado em Miami para exercer suas funções?

A oposição é indispensável à democracia. Tem o direito de fiscalizar, denunciar, cobrar explicações e apresentar alternativas. Não precisa ser tutelada por ninguém, muito menos dirigida obrigatoriamente do exterior.

O senador também agradeceu aos presidentes Donald Trump e Javier Milei pelo acolhimento. Mas o próprio Trump, questionado sobre a controvérsia, declarou que não pretende se envolver.

A manifestação americana evidencia um limite importante: divergências eleitorais brasileiras precisam ser resolvidas pelas instituições brasileiras. Nossa soberania não depende da aprovação de Washington, Buenos Aires ou Miami.

Na carta, Flávio procura estabelecer paralelos entre sua situação e a de personagens históricos como Rui Barbosa e Charles de Gaulle. Mas a história não autoriza comparações automáticas. Cada episódio tem circunstâncias próprias, e a grandeza de personagens históricos não se transfere por simples referência.

Há ainda uma responsabilidade que não pode ser esquecida: os milhões de brasileiros que votaram em Flávio Bolsonaro. Esses eleitores não desapareceram com a derrota. Continuam tendo opiniões, reivindicações e o direito de participar da vida nacional. Merecem uma oposição atuante, capaz de fiscalizar o governo e oferecer propostas concretas para os problemas do país.

Lula, por sua vez, foi eleito para governar todos os brasileiros, inclusive aqueles que votaram contra ele. Sua vitória não lhe concede imunidade à crítica, nem dispensa seu governo da obrigação de prestar contas.

O Brasil precisa de governo responsável e oposição igualmente responsável. Precisa de segurança, saúde, educação, empregos e crescimento econômico. Precisa, sobretudo, deixar para trás a ideia de que uma eleição só é legítima quando vence o candidato de nossa preferência.

A alteração da carta de Flávio Bolsonaro é reveladora. Ao substituir “presidente eleito” por “líder do Brasil”, ele retirou uma afirmação incompatível com o resultado oficial, mas preservou uma pretensão política abrangente.

Liderança, entretanto, não nasce de um comunicado. Constrói-se com trabalho, coerência, reconhecimento e responsabilidade. Flávio tem legitimidade para buscar a liderança de seus apoiadores. Pode disputar espaços políticos e organizar a oposição. O que não pode é confundir a representação de uma parcela expressiva do eleitorado com um mandato para falar em nome de todos os brasileiros.

O Brasil não é propriedade de Lula, de Bolsonaro, de partido algum ou de qualquer ministro do Supremo. Pertence ao seu povo.

Flávio mudou a carta. Resta saber se compreenderá o significado da mudança, porque, numa democracia, presidente é quem vence a eleição. E líder é quem conquista o reconhecimento daqueles que pretende representar. O resto é autoproclamação. E autoproclamação não substitui voto, legitimidade e nem responsabilidade.

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