A França prepara uma ampla operação de segurança para o próximo sábado (24), enquanto organizações estudantis e grupos de coletes amarelos convocam novas manifestações contra o custo de vida e a precariedade dos serviços públicos. O governo do primeiro-ministro Sébastien Lecornu tenta evitar a repetição dos confrontos, incêndios e saques registrados em várias cidades no último fim de semana.
Nesta terça-feira (20), Lecornu anunciou na Assembleia Nacional que o dispositivo policial será ampliado e terá mudanças de atuação. Segundo o jornal Le Parisien, o governo também avalia proibir determinadas manifestações para reduzir o risco de novos episódios de violência.
A nova jornada foi apresentada por uma coordenação de coletes amarelos como o “ato 2” da mobilização. Organizações estudantis, entre elas Unef e Fage, também convocaram participantes para sábado. O movimento procura manter nas ruas as reivindicações por melhores condições de ensino, salários e poder de compra, conforme informou o portal francês L’Internaute.
Os atos anteriores reuniram 550 mil pessoas, segundo o Ministério do Interior, e 800 mil, de acordo com os organizadores. A dimensão da participação tornou a continuidade dos protestos um desafio para o governo do presidente Emmanuel Macron, pressionado a responder às demandas sociais e recuperar o controle da segurança.
Nos preparativos para sábado, os organizadores anunciam ações que poderão incluir bloqueios de supermercados, depósitos de combustíveis e outros pontos de circulação. Em declaração à agência Anadolu, o advogado David Libeskind, ligado ao movimento dos coletes amarelos, afirmou que os toques de recolher não impedirão a mobilização, porque os protestos estão previstos para a manhã e a tarde.
Entre as reivindicações apresentadas por esse grupo estão o congelamento dos preços dos combustíveis, do gás e de produtos essenciais. A coordenação também pediu que Macron receba uma delegação de estudantes, trabalhadores, agricultores e outros manifestantes. Os bloqueios anunciados, porém, ainda são planos dos organizadores.
O governo reconheceu falhas na resposta aos episódios de sábado passado. De acordo com a Reuters, Lecornu apontou problemas de inteligência e uma distribuição excessivamente estática das forças de segurança. O ministro do Interior, Laurent Nuñez, lamentou os erros e assumiu parte da responsabilidade.
Para a próxima mobilização, militares da operação Sentinelle deverão assumir principalmente tarefas de vigilância de pontos fixos, liberando policiais e gendarmes para o policiamento das manifestações, segundo o L’Internaute.
Enquanto isso, restrições noturnas continuam sendo usadas em áreas atingidas pelos distúrbios. Segundo o Le Monde, foram anunciados toques de recolher em determinados bairros de Paris, Lyon, Bordeaux e Nice. Lecornu também deverá receber representantes sindicais na quarta-feira (21) e partidos políticos na quinta-feira (22), numa tentativa de abrir uma frente de diálogo antes do novo sábado de protestos.
A continuidade da mobilização encontra divergências entre os próprios coletes amarelos. O coletivo “Gilets jaunes citoyens” anunciou que não participará da nova jornada, alegando que pretende evitar mais desordem. Outras figuras do movimento temem que as imagens de destruição acabem encobrindo as reivindicações sociais.
O calendário de contestação já se estende a novembro. Centrais sindicais convocaram uma jornada de greves e manifestações para o dia 5, com pautas relacionadas a salários, emprego, indústria e serviços públicos. O próximo sábado será um teste da capacidade dos organizadores de manter a adesão às ruas e do governo de garantir a segurança sem ampliar a tensão.
