Brasília, 16/10/2026

Lula defende maioridade penal aos 16 anos e cobra apuração de denúncias no STF

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, defendeu a redução da maioridade penal para 16 anos em crimes hediondos e a investigação de denúncias envolvendo ministros do Supremo Tribunal Federal. Em entrevista à jornalista Renata Lo Prete, na TV Globo, na quinta-feira (15), também assumiu a responsabilidade pelas dificuldades do governo e pelo desempenho eleitoral.

A conversa, realizada nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, durou cerca de 40 minutos e abordou segurança pública, Banco Master, programas sociais, economia e relações com os Estados Unidos. Lula respondeu ainda sobre o resultado do primeiro turno e a possibilidade de enfrentar um Congresso de maioria conservadora caso conquiste um novo mandato.

Ao tratar da maioridade penal, Lula apoiou a responsabilização criminal a partir dos 16 anos para crimes hediondos, mas defendeu uma discussão separada da PEC da Segurança Pública. Segundo o presidente, a prioridade deve ser aprovar a proposta de integração das forças policiais e depois examinar a alteração da idade penal, evitando que a controvérsia paralise outras medidas.

O posicionamento representa uma mudança em relação a declarações anteriores de Lula e à resistência histórica de setores do PT à redução da maioridade. Conforme recordou a Folha de S.Paulo, o presidente havia se manifestado contra a medida em seus primeiros mandatos, quando argumentava que aumentar a punição não resolveria a violência praticada por adolescentes.

Lula assumiu a responsabilidade pela avaliação negativa do governo e pelas dificuldades na eleição. “Eu acho que tudo é responsabilidade minha, eu sou o governo”, afirmou. Disse que não poderia atribuir a outras pessoas a dificuldade de convencer a população dos resultados de sua administração e reconheceu falhas na comunicação das ações realizadas durante o mandato.

Na explicação do presidente, parte da gestão foi dedicada à recuperação de estruturas e políticas públicas. Ele citou a PEC da Transição e a recomposição de recursos para saúde, educação e assistência social. Apesar dessas dificuldades, afirmou que cabia a ele apresentar os resultados e responder pelo julgamento dos eleitores sobre o desempenho do governo.

Questionado sobre a relação com o próximo Congresso, Lula defendeu a negociação para construir uma base parlamentar. Recordou a participação de diferentes partidos em sua administração e afirmou que o vencedor da eleição precisa reunir apoio para governar. Sustentou que a articulação política é necessária mesmo diante de uma composição desfavorável na Câmara e no Senado.

As denúncias relacionadas ao Banco Master ocuparam uma parte importante da entrevista. Lula defendeu a apuração das suspeitas envolvendo integrantes do Supremo e afirmou que a crise tornou inevitável discutir mudanças no Judiciário. Entre os temas mencionados pelo presidente estão os critérios de escolha e a possibilidade de estabelecer mandatos para os ministros da Corte.

Lula disse ter conversado com o presidente do STF, Edson Fachin, sobre a gravidade das denúncias. Sustentou que os fatos precisam ser esclarecidos e que nenhuma autoridade pode ficar acima da lei. Ao mesmo tempo, atribuiu motivação política à ofensiva de aliados de Flávio Bolsonaro contra Alexandre de Moraes, por sua atuação nos processos envolvendo Jair Bolsonaro.

Renata Lo Prete questionou o presidente sobre o pedido de vista de Flávio Dino, que interrompeu uma deliberação relacionada às investigações. Lula respondeu que não pode interferir nas decisões de um ministro e que o recurso faz parte do funcionamento do tribunal. Reiterou, porém, que as suspeitas precisam ser apuradas e não podem ser esquecidas.

O presidente também confirmou ter recebido Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, no Palácio do Planalto. Segundo seu relato, o banqueiro reclamou de perseguição política e ouviu que a atuação do Banco Central deveria seguir critérios técnicos. Lula afirmou que eventuais irregularidades precisariam ser investigadas, com adoção das providências necessárias pelas autoridades responsáveis.

Ao explicar o encontro, Lula sustentou que receber um empresário com problemas em uma instituição financeira não significa oferecer proteção contra a fiscalização. Disse ter informado a Vorcaro que ele não seria perseguido politicamente, mas estaria sujeito à investigação. O presidente apresentou a conversa como um atendimento que não deveria alterar a atuação dos órgãos competentes.

A presença do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, em um evento ligado ao banqueiro em Londres também foi abordada. Conforme relatou o UOL, Lula afirmou ter cobrado explicações e disse que a resposta não o convenceu. O presidente evitou assegurar a permanência do delegado no comando da instituição em um eventual novo mandato.

Na área social, Lula declarou que desconhecia a ausência de reajuste do Bolsa Família durante o atual governo. Disse ter cobrado explicações de seus ministros e determinado a correção depois de tomar conhecimento da situação. Classificou a falta de atualização como incompatível com o compromisso de preservar o poder de compra das famílias atendidas pelo programa.

O anúncio do aumento ocorreu 17 dias antes do primeiro turno, circunstância que motivou questionamentos sobre o calendário da medida. Segundo o Poder360, o reajuste de 15,04% elevou o piso mensal de R$ 600 para R$ 691. Na entrevista, Lula sustentou que havia espaço fiscal para a correção e defendeu a decisão de atualizar o benefício.

Ao discutir segurança pública, o presidente defendeu maior coordenação nacional, a criação de um ministério para a área e investimentos no sistema prisional. Também afirmou que a cooperação internacional deve ajudar a combater as atividades financeiras e operacionais das facções. Segundo ele, é necessário impedir que presos continuem comandando crimes de dentro das unidades penitenciárias.

Lula contestou o enquadramento das facções brasileiras como organizações terroristas nos moldes defendidos pelos Estados Unidos. Argumentou que esses grupos atuam principalmente em busca de dinheiro, embora imponham violência e medo às comunidades. Defendeu a cooperação entre os países no enfrentamento ao crime organizado e disse ter apresentado propostas nesse sentido ao governo americano.

Sobre Donald Trump, o presidente afirmou manter uma relação civilizada, apesar das divergências comerciais entre os dois países. Defendeu a continuidade das negociações sobre as tarifas aplicadas aos produtos brasileiros e declarou preferência por uma solução negociada. Ressalvou, entretanto, que o Brasil pode adotar medidas de reciprocidade caso não seja possível alcançar um entendimento.
Na economia, Lula reconheceu a preocupação com o crescimento da dívida pública e defendeu a expansão da atividade econômica como caminho para melhorar as contas nacionais. Segundo a cobertura do g1, criticou ajustes que atinjam a população de baixa renda. Também voltou a defender políticas de crédito e estímulo ao consumo para movimentar a economia.
Na parte final, Lula citou o fim da escala 6×1, medidas para microempreendedores, redução de despesas com energia e distribuição de gás de cozinha. Mencionou ainda a proposta de transporte público gratuito nos fins de semana. O presidente vinculou essas iniciativas à melhoria da renda, das condições de vida e do tempo de descanso dos trabalhadores.

A entrevista ocorreu dez dias antes do segundo turno, marcado para 25 de outubro, e abriu a rodada de conversas da Globo com os presidenciáveis. Flávio Bolsonaro será entrevistado nesta sexta-feira (16), também por Renata Lo Prete. O debate da emissora entre os dois candidatos está previsto para o dia 23, na reta final da campanha.

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