O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) trocaram acusações sobre corrupção, confrontaram seus históricos políticos e apresentaram propostas para segurança, economia e saúde no primeiro debate entre os dois na eleição presidencial. Promovido pela Band na noite deste domingo (18), em São Paulo, o encontro ocorreu a uma semana da votação do segundo turno, marcada para 25 de outubro.
Ao longo de três blocos, os candidatos alternaram respostas aos jornalistas e confrontos diretos. Segundo o relato do g1, as discussões incluíram as investigações sobre familiares dos presidenciáveis, o financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro, as fraudes no INSS e a condução da pandemia. Também houve cobranças sobre a escala de trabalho 6×1, a relação com os Estados Unidos e a redução da maioridade penal.
A segurança pública abriu o debate. Flávio afirmou que pretende declarar “guerra ao narcoterrorismo” e classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando Vermelho e as milícias como organizações narcoterroristas. Prometeu recuperar territórios controlados por esses grupos e endurecer o tratamento de seus integrantes.
O senador citou a Lei Antifacção e afirmou que chefes de organizações criminosas poderão permanecer presos por até 80 anos. Também disse que criminosos serão presos ou “neutralizados” pelas polícias e acusou o governo de adotar uma política de desencarceramento.
Lula defendeu a ampliação da participação federal na segurança e afirmou que criará o Ministério da Segurança Pública caso a proposta de emenda à Constituição sobre o tema seja aprovada pelo Senado. Sustentou que a recuperação de territórios exige atuação conjunta da União, dos estados e dos municípios.
O presidente também citou a Lei Antifacção, sancionada em março, e defendeu que o combate às organizações criminosas alcance seus integrantes de maior poder econômico. “Para o trabalhador e para a comunidade, proteção. Para o bandido, prisão”, declarou.
Na economia, Lula apostou na circulação de renda, no estímulo aos pequenos negócios e no incentivo aos microempreendedores individuais. Defendeu investimentos nas economias digital, verde e criativa e afirmou que o Brasil está próximo de recuperar o grau de investimento.
Flávio concentrou as críticas no custo de vida, nos juros e no crescimento da dívida pública. Perguntou aos eleitores se a vida havia melhorado e se os alimentos estavam mais baratos. Prometeu controlar gastos e abrir espaço no Orçamento para reduzir o endividamento do governo e ajudar famílias endividadas.
O confronto ganhou intensidade quando Lula cobrou explicações sobre o voto de Flávio, como deputado estadual em 2009, contra a ampliação da licença-maternidade de servidoras. O senador respondeu que não tem “absolutamente nada contra as mulheres”, mas, conforme o g1, não explicou o voto.
Flávio questionou o presidente sobre a empresária e lobista Roberta Luchsinger e as investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Os inquéritos apuram suspeitas de tráfico de influência em órgãos federais para beneficiar empresários.
Roberta nega irregularidades. Em nota divulgada na véspera do debate, o Planalto afirmou que Lula nunca teve interlocução com a empresária, não recebeu demandas dela e desconhece as supostas tratativas. Também declarou que não existe contrato do governo federal com Roberta.
As fraudes nos descontos de benefícios do INSS foram outro ponto de embate. Flávio acusou o governo de não proteger os aposentados. Lula respondeu que o esquema foi descoberto e combatido em sua gestão. Segundo o material do g1, a Polícia Federal indiciou 48 pessoas na primeira investigação.
Lula também cobrou explicações sobre o pedido de R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro para financiar “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro. A PF investiga suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção no financiamento da produção. Flávio nega irregularidades e afirmou, em entrevista anterior à TV Globo, que o contrato não foi cumprido.
A escala 6×1 apareceu em diferentes momentos. Questionado por Lula, Flávio disse que não pretende alterar o fim desse regime de trabalho. O senador afirmou ter mudado de posição após ouvir trabalhadores durante a campanha. Lula defendeu a continuidade dos aumentos do salário mínimo acima da inflação.
Na saúde, Flávio propôs um prontuário eletrônico único, integrado pelo CPF, com informações das redes pública e privada. Também defendeu telemedicina, tecnologia e inteligência artificial para acelerar atendimentos e reafirmou a intenção de escolher Claudio Luiz Lottenberg para o Ministério da Saúde.
Lula questionou se a proposta de levar ao SUS o chamado “padrão Einstein” significaria privatização e criticou a escolha anunciada pelo adversário. O presidente defendeu o sistema público e citou a ampliação do número de médicos e medidas para reduzir a espera entre o diagnóstico e o tratamento de câncer.
A pandemia provocou novo confronto. Lula criticou a gestão de Jair Bolsonaro, enquanto Flávio reconheceu que a saúde não foi uma área em que o governo do pai teve “o melhor resultado”. Atribuiu parte das dificuldades à pandemia e afirmou que o ex-presidente “deu o seu melhor”.
Os candidatos também discutiram a saída temporária de presos. Flávio citou crimes cometidos por beneficiários da medida. Lula defendeu o instrumento para presos com bom comportamento, como parte da ressocialização, mas afirmou que autores de crimes violentos não devem receber o benefício.
No terceiro bloco, Lula associou o aumento da produtividade aos investimentos empresariais em inovação, à recuperação industrial e à formação de profissionais. Flávio defendeu ampliar a conexão de escolas, hospitais e aldeias indígenas à internet, além de criar uma plataforma para aproximar trabalhadores e empresas.
A relação com os Estados Unidos entrou no confronto quando Lula perguntou se o adversário entregaria aos americanos a exploração de terras raras brasileiras. Flávio afirmou ter viajado ao país para defender empresas e produtos nacionais e negou ter atuado para que negócios brasileiros fossem atingidos por tarifas.
Lula acusou a família Bolsonaro de subordinação aos interesses americanos e desafiou Flávio a abrir contas bancárias e sigilos telefônicos antes da eleição. O senador respondeu que não tem “absolutamente nada a esconder” e defendeu cooperação entre países das Américas contra o crime organizado.
Na reta final, Flávio voltou a defender a castração química de estupradores e a redução da maioridade penal. O senador apoia uma emenda que prevê responsabilização penal a partir dos 16 anos na maioria dos crimes e dos 14 em casos específicos. Lula passou a defender a redução para 16 anos nos casos de crimes hediondos.
Nas considerações finais, o presidente pediu apoio à continuidade de seu governo, defendeu a recuperação da indústria e estatais “fortes e produtivas”. Sua fala começou sob interrupções, e os mediadores pediram a Flávio e à plateia que permitissem a conclusão.
Flávio afirmou que não fará promessas que não possa cumprir, retomou suas propostas para a segurança e defendeu a criação do Ministério da Prosperidade. Disse que pretende colocar o cidadão no centro das ações do governo e pediu votos.
Mediado por Adriana Araújo e Eduardo Oinegue, o debate ocorreu em um cenário de proximidade nas pesquisas. O Datafolha de quinta-feira (15) apontou Flávio com 47% das intenções de voto e Lula com 45%. A Quaest de quarta-feira (14) registrou 46% e 44%, respectivamente. Nos dois levantamentos, os candidatos estavam tecnicamente empatados.


