Luiz Carlos Bordoni (*)
O Brasil registrou 1,082 milhão de matrículas a menos na educação básica entre 2024 e 2025. São mais de um milhão de estudantes fora do sistema formal de ensino — ou melhor, oficialmente fora do censo.
O Ministério da Educação afirma que não há problema. Diz que a queda é consequência da redução da população em idade escolar e da diminuição da repetência. Traduzindo: menos crianças nascendo e menos alunos ficando “atrasados”, inchando as estatísticas.
Mas aqui cabe uma pergunta essencial: queda de matrícula nunca é motivo de preocupação?
O Brasil ainda convive com desigualdades profundas, evasão silenciosa no ensino médio, abandono por necessidade econômica, gravidez precoce, violência e desalento. A demografia explica parte do fenômeno. Não explica tudo.
É verdade que o país vive transição demográfica. A população de 0 a 3 anos caiu 8,4% entre 2022 e 2025, segundo dados apresentados pelo Inep com base na Pnad do IBGE. A frequência escolar entre 4 e 17 anos alcança 97,2%. São números importantes. Mas universalizar acesso não significa garantir permanência com qualidade.
Também se celebra a redução da distorção idade-série no ensino médio — de 27,2% para 13,99% no 3º ano. Ótimo. Mas a pergunta permanece: houve melhoria real de aprendizagem ou flexibilização silenciosa dos critérios de aprovação?
O Brasil já viveu momentos em que “aprovar para melhorar índice” virou política informal. Quando mais de um milhão de matrículas desaparecem, o mínimo que se espera é cautela, não comemoração.
Sim, há avanços: expansão de vagas em creches; investimentos do Novo PAC; conectividade escolar ampliada. Mas educação não se mede apenas por infraestrutura ou estatística administrativa. Mede-se por aprendizagem, equidade e permanência real.
A transição demográfica é um fato. A eficiência administrativa pode ser um mérito. Mas queda expressiva de matrícula nunca deve ser tratada com naturalidade automática.
Educação não é planilha. É destino de geração. E geração que some das estatísticas precisa ser investigada — não apenas explicada.
Monteiro Lobato dizia que “um país se faz com homens e livros”. Não com discursos. Não com gráficos coloridos. Não com celebrações apressadas.
Se mais de um milhão de matrículas desaparecem do sistema, o Brasil não pode reagir com naturalidade burocrática. Pode haver explicação demográfica. Pode haver melhora administrativa. Mas a educação nunca é assunto para complacência estatística.
Homens e livros exigem presença. Exigem permanência. Exigem qualidade. Cada criança fora da escola é um livro fechado. Cada jovem que abandona o ensino é uma página rasgada do futuro nacional.
Se estamos, de fato, avançando, que os números sejam acompanhados de aprendizagem real, equidade concreta e oportunidades verdadeiras. Porque um país que reduz matrícula sem questionar pode estar reduzindo também seus sonhos. E na educação, meu caro leitor, não existe margem para indiferença.
(*) Luiz Carlos Bordoni é Jornlistas

