Luiz Carlos Bordoni
A América Latina voltou a discutir um velho dilema da civilização: até onde um Estado pode avançar no combate ao crime sem comprometer as liberdades individuais? O chamado “Método Bukele”, implantado em El Salvador pelo presidente Nayib Bukele, tornou-se o exemplo mais emblemático e mais polêmico desse embate contemporâneo.
Durante décadas, El Salvador conviveu com níveis extremos de violência. Gangues como a Mara Salvatrucha (MS-13) e o Barrio 18 praticamente sequestraram partes do país. Extorsões, assassinatos e recrutamento forçado tornaram-se rotina em bairros inteiros. O medo passou a governar comunidades onde o Estado simplesmente havia desaparecido.
Foi nesse ambiente que Bukele surgiu como fenômeno político. Com discurso duro e forte presença digital, prometeu fazer aquilo que governos anteriores não conseguiram: retomar o controle das ruas. A partir de 2022, após uma explosão de homicídios atribuída às facções, o governo decretou estado de exceção e iniciou uma ofensiva sem precedentes.
Os números impressionam. Mais de 70 mil pessoas foram presas. O país construiu o gigantesco CECOT, prisão de segurança máxima transformada em símbolo internacional da nova política salvadorenha. As taxas oficiais de homicídio despencaram. El Salvador, antes citado entre os países mais violentos do planeta, passou a aparecer em rankings de redução da criminalidade. Para boa parte da população local, houve algo concreto e imediato: a sensação de segurança retornou.
E aqui está o ponto central do fenômeno Bukele: segurança pública não é apenas estatística. É uma sensação cotidiana. É poder sair de casa sem medo. É ver o comércio funcionando sem extorsão. É permitir que bairros deixem de ser territórios dominados pelo crime. Em sociedades traumatizadas pela violência, esse discurso possui enorme força política.
Não surpreende, portanto, que o modelo desperte admiração em vários países latino-americanos. Em regiões onde o crime organizado avança sobre comunidades inteiras, muitos enxergam em Bukele alguém que teve coragem de enfrentar facções sem hesitação institucional. Para seus defensores, métodos tradicionais fracassaram durante décadas enquanto criminosos se fortaleciam.
Mas o debate não termina aí e, talvez seja justamente aí, que ele comece. Organizações internacionais de direitos humanos denunciam detenções arbitrárias, enfraquecimento do devido processo legal, restrições a garantias constitucionais e concentração excessiva de poder no Executivo. Relatórios apontam prisões sem provas robustas, denúncias de maus-tratos e dificuldades de defesa para parte dos detidos.
O receio de muitos analistas é que o combate ao crime se transforme em justificativa permanente para flexibilizar direitos fundamentais. Afinal, regimes de exceção costumam nascer prometendo resolver emergências. O problema histórico é que, muitas vezes, a exceção deixa de ser temporária e passa a virar método de governo.
Outro aspecto importante é a diferença estrutural entre El Salvador e países continentais como o Brasil. El Salvador possui território pequeno, população reduzida e dinâmica criminal distinta. Aplicar receitas idênticas em realidades completamente diferentes pode produzir consequências imprevisíveis. O crime organizado brasileiro, por exemplo, possui ramificações econômicas, financeiras e territoriais muito mais complexas.
Além disso, permanece uma dúvida essencial: os resultados são sustentáveis no longo prazo? Reduzir homicídios sob estado de exceção é uma coisa. Manter estabilidade institucional, garantias democráticas e segurança duradoura sem medidas extraordinárias é outra completamente diferente.
O Método Bukele acaba revelando uma verdade desconfortável da América Latina contemporânea: muitos cidadãos passaram a aceitar abrir mão de parte das garantias civis em troca de proteção imediata. Trata-se de uma reação compreensível diante do medo, mas que exige enorme cautela institucional.
No fundo, o debate salvadorenho ultrapassa as fronteiras de El Salvador. Ele toca numa pergunta antiga, mas extremamente atual: como derrotar o crime sem permitir que a própria democracia saia ferida no processo?
A resposta talvez esteja justamente no equilíbrio. Segurança pública forte, eficiente e presente é obrigação do Estado. Mas democracia também se mede pela capacidade de preservar direitos mesmo nos momentos de maior tensão. Quando um país perde completamente a segurança, a liberdade enfraquece, mas quando se perde completamente as garantias, a democracia também corre risco.
E é exatamente por isso que o tema provoca tanta discussão no continente. O “Método Bukele” não é apenas uma política de segurança. Tornou-se símbolo de uma América Latina cansada da violência e ao mesmo tempo receosa do preço que pode pagar para combatê-la.



