A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), eleita senadora pelo Distrito Federal, mantém participação discreta na campanha presidencial do enteado, Flávio Bolsonaro (PL), e concentra esforços nas candidaturas de Celina Leão (PP), no DF, e Professora Dorinha (União Brasil), no Tocantins. O distanciamento na reta final do segundo turno sucede divergências públicas sobre alianças eleitorais e seu espaço nas decisões do partido.
Michelle participou de apenas um compromisso público ao lado de Flávio neste segundo turno, uma reunião com parlamentares eleitos do PL, segundo o SBT News. Ela também não compareceu à comemoração do resultado da primeira votação, e sua imagem perdeu espaço nas propagandas do presidenciável.
A ausência contrasta com a expectativa inicial da campanha. Michelle era considerada importante para aproximar Flávio das eleitoras e suavizar a imagem da candidatura. A equipe esperava sua participação em grandes atos e viagens, especialmente depois da flexibilização das visitas familiares a Jair Bolsonaro pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
A campanha de Flávio minimiza a distância e afirma que a orientação foi distribuir as principais lideranças pelas bases eleitorais. Nessa versão, Michelle estaria cumprindo uma tarefa regional, assim como o candidato a vice-presidente, Alfredo Gaspar.
Nos bastidores, porém, há outra interpretação. O SBT News relata que a consolidação de Flávio na liderança das pesquisas durante o primeiro turno teria reduzido o peso de Michelle na estratégia eleitoral. A comunicação passou a privilegiar a economia e o confronto com o PT, diminuindo os acenos às mulheres por meio da ex-primeira-dama.
O afastamento ocorre após uma campanha marcada por desentendimentos. A crise mais intensa veio a público em junho, quando Michelle acusou o enteado de desrespeitá-la durante uma conversa telefônica sobre as articulações do PL no Ceará.
Conforme registrou o Congresso em Foco, Michelle afirmou que Flávio havia diminuído sua experiência política e sugerido que ela se afastasse das decisões partidárias. Disse ainda ter entendido que seu apoio à candidatura presidencial era considerado insignificante.
Flávio negou ter humilhado a madrasta e pediu desculpas caso a tivesse ofendido. Também afirmou reconhecer sua atuação no PL Mulher e os cuidados dedicados ao ex-presidente. A manifestação buscou conter uma crise que expôs publicamente a disputa por influência dentro da família e do partido.
Na origem do confronto estava a aproximação do PL com Ciro Gomes (PSDB), defendida pelo deputado André Fernandes e apoiada por Flávio. Michelle rejeitava a aliança e sustentava as candidaturas de Eduardo Girão (Novo) ao governo cearense e de Priscila Costa (PL) ao Senado.
A escolha de outro nome para a disputa senatorial atingiu diretamente o projeto político da ex-primeira-dama. Michelle passou a questionar a autonomia que teria para organizar o PL Mulher e promover candidaturas femininas, transformando a negociação estadual em um debate sobre seu espaço no comando partidário.
Em agosto, os dois ensaiaram uma reconciliação durante um encontro em Brasília para gravar propaganda eleitoral. Segundo a Folha de S.Paulo, Michelle afirmou que haviam conversado e se unido em favor da campanha, mas voltou a criticar a composição com Ciro e reclamou da falta de respeito à sua autonomia.
Na mesma ocasião, manifestou preferência por uma mulher na vice de Flávio, que escolheu Alfredo Gaspar. Também antecipou dificuldades para viajar pelo país, alegando a necessidade de acompanhar a rotina do marido. A gravação conjunta sinalizou uma trégua, mas não se converteu em participação frequente nos palanques do enteado.
Ao priorizar Celina e Dorinha, Michelle fortalece uma rede de aliadas construída durante sua atuação no PL Mulher. O grupo inclui Bia Kicis, Damares Alves e Carol de Toni, além de deputadas próximas da futura senadora. A vitória das candidatas aos governos do DF e do Tocantins ampliaria a influência dessa articulação.
Uma tentativa de aproximação ainda está em negociação. A colunista Marcela Mattos, do UOL, informou na quinta-feira (22) que Celina articula a presença de Flávio em um ato com Michelle em Brasília no sábado (24), véspera da votação. Até a publicação da reportagem, a participação do presidenciável não estava confirmada.


