Luiz Carlos Bordoni (*)
O atalho perigoso das pesquisas As pesquisas eleitorais passaram a explorar um atalho perigoso: destacar cenários de segundo turno como se fossem fotografia fiel da disputa real. Ao fazer isso, criam no eleitor a sensação de que determinado candidato “já chegou lá”, quando, na verdade, sua performance no primeiro turno é frágil ou até medíocre.
O segundo turno é um exercício hipotético. Ele desconsidera a fragmentação inicial, ignora rejeições cruzadas e parte de uma simplificação artificial do eleitorado. Quando esse dado é apresentado como principal manchete, induz uma leitura equivocada: a de competitividade antecipada. Não se está falando, necessariamente, de ilegalidade. As pesquisas seguem critérios estatísticos e metodológicos. O problema reside no uso seletivo da informação, na hierarquização dos dados e na forma como são apresentados ao público. Quando cenários improváveis recebem mais destaque do que o retrato fiel do primeiro turno, há um desvio ético e comunicacional relevante.
Do ponto de vista da ciência política e da comunicação eleitoral, trata-se de um terreno conhecido. Fenômenos como o bandwagon effect — o voto no suposto vencedor — e o voto útil antecipado são potencializados quando a pesquisa constrói uma imagem de
proximidade com o líder, ainda que essa proximidade não se sustente Apresentados de forma destacada, repetitiva e sem o devido contexto, esses números podem, sim, exercer efeito indutivo sobre o eleitor. Eles projetam uma disputa binária, simplificada, quase plebiscitária, que não corresponde à lógica real do primeiro turno, que é marcado pela multiplicidade de candidaturas, pela fragmentação do voto e por estratégias eleitorais completamente distintas.
Venda de gato por lebre. Trabalhando apenas a situação hipotética do segundo turno, o candidato passará a ser percebido como “forte”, “viável” ou “quase lá”. Essa percepção, ainda que artificial, influencia o comportamento do eleitor, sobretudo daquele que teme desperdiçar o voto.
Na prática, trata-se de uma estratégia narrativa. Inflar o “quase empate” no segundo turno serve para compensar fraquezas reais no primeiro. É marketing político travestido de estatística. É sempre bom lembrar que pesquisa é fotografia, não roteiro. Quando
se inverte essa lógica, o número deixa de informar e passa a orientar o voto. E aí já não se mede opinião — constrói-se percepção.
* Jornalista


