Luiz Carlos Bordoni
Mais de 30 milhões de brasileiros não foram às urnas neste 4 de outubro. É gente demais para que tratemos o fenômeno apenas como uma estatística eleitoral. É quase um país inteiro que decidiu ficar em casa enquanto outro país escolhia os seus representantes.
Por quê?
Uma pesquisa divulgada recentemente (o Termômetro do Bem Viver), realizada por projeto da Plataforma Avaaz em parceria com o Datafolha, oferece pistas interessantes. A abstenção não estaria ligada somente à descrença na política. Solidão, enfraquecimento dos vínculos comunitários, exaustão mental e dependência das telas também aparecem associados ao afastamento eleitoral.
É uma explicação importante, mas creio que exista outra dimensão, talvez mais difícil de medir em pesquisas.Eu a encontro conversando com as pessoas.
Depois de tantos anos de jornalismo e de convivência diária com gente de todas as classes sociais, tenho o hábito de ouvir. Ouço no café, na rua, na fila, numa roda de conversa, numa viagem. E tenho percebido o crescimento de um grupo que não cabe perfeitamente nas classificações tradicionais de direita, esquerda ou centro.
Eu os chamaria de desesperançados. São brasileiros que simplesmente deixaram de acreditar. Não acreditam no governo porque acham que o governo mente. Não acreditam nos políticos porque acham que os políticos prometem na campanha e esquecem depois da eleição.
Desconfiam do Congresso. Desconfiam da Justiça. Desconfiam da imprensa. E, para muitos, até instituições que durante décadas foram referências morais, inclusive igrejas, perderam parte de sua autoridade. É uma sucessão de desencantos.
O problema é que a democracia depende de uma matéria-prima que não se encontra na Constituição nem se fabrica por decreto: confiança.
O cidadão precisa acreditar que sua participação tem alguma utilidade. Precisa imaginar que apertar seis números numa urna não é apenas cumprir uma obrigação burocrática, mas interferir verdadeiramente no destino coletivo.
Quando essa convicção desaparece, nasce a pergunta fatal: “Para que votar?” E quando milhões começam a fazer a mesma pergunta, temos um problema muito maior do que uma eleição. Temos uma crise de pertencimento.
Talvez a pesquisa esteja certa ao falar da solidão. O homem contemporâneo está cercado de gente nas redes sociais e, paradoxalmente, cada vez mais sozinho. Tem centenas ou milhares de “amigos”, mas poucos companheiros de caminhada. Recebe informação durante todo o dia, mas nem sempre encontra alguém com quem conversar.
A política também migrou para esse ambiente. E ali quase tudo é exagerado. O adversário virou inimigo. A divergência virou ofensa. A crítica virou cancelamento. A mentira ganhou velocidade industrial. O algoritmo descobriu que nossa indignação dá audiência e passou a nos servir indignação no café da manhã, no almoço e no jantar.
É natural que uma sociedade submetida permanentemente a esse bombardeio fique cansada, mas existe algo ainda mais perigoso do que o cansaço. É a indiferença.
O revoltado ainda participa. Reclama, protesta, discute, vota contra. O indiferente vai embora. Ele não quer mais saber. É exatamente aí que a democracia começa a se perder.
Porque a democracia não morre apenas quando alguém fecha o Congresso, rasga a Constituição ou impede eleições. Ela também enfraquece silenciosamente quando milhões concluem que participar não vale a pena.
Talvez estejamos formando no Brasil uma enorme população de órfãos institucionais. Não necessariamente são antipolíticos. São decepcionados com a política. Não necessariamente rejeitam a democracia. Duvidam de que ela esteja funcionando para eles.
E existe diferença. A resposta das instituições não pode ser repreender essas pessoas, chamando-as de irresponsáveis porque não foram votar.
É preciso perguntar por que não foram. Onde perdemos essas pessoas? Quando deixaram de acreditar? Que promessa foi quebrada? Que escândalo destruiu a confiança que ainda restava? Que experiência cotidiana lhes ensinou que o Estado existe, mas parece não existir para elas?
A abstenção é também uma mensagem e talvez estejamos cometendo o erro de contar os ausentes sem ouvi-los. Trinta milhões de ausentes não são simplesmente trinta milhões de votos perdidos. São trinta milhões de histórias.
Evidentemente há idosos, enfermos, pessoas em viagem, dificuldades de deslocamento e muitas outras razões objetivas. Não se pode transformar toda ausência em protesto político, mas o tamanho do fenômeno exige reflexão.
O Brasil precisa olhar para aquilo que estou chamando de grupo dos desesperançados, porque uma democracia consegue conviver com oposição, protestos, divergências e até grandes conflitos. O que ela não suporta indefinidamente é a perda da esperança.
O cidadão pode perder uma eleição e voltar quatro anos depois. Pode ver seu candidato derrotado e continuar acreditando nas instituições. Pode discordar do governo e ainda confiar no país.
Mas quando se perde a confiança em todos – leia-se governo, Parlamento, Justiça, partidos, imprensa, lideranças e instituições -, sobra o quê? Sobra apenas ele próprio. Sozinho.
Talvez seja esta a grande advertência deixada pelas urnas vazias de 4 de outubro. Não sei se o brasileiro cansou do Brasil. Tenho a impressão de que ele está cansado de promessas, de escândalos, de radicalismos, de versões contraditórias da verdade e da sensação permanente de estar sendo enganado por alguém.
E isso é muito mais grave, porque ninguém abandona a própria pátria facilmente. Antes de abandonar o Brasil, talvez milhões estejam apenas deixando de acreditar naqueles que dizem representá-lo.
Por isso, eu inverteria a pergunta: o brasileiro cansou do Brasil? Ou foram o Estado, a política e algumas de nossas instituições que, durante tanto tempo, deram ao brasileiro a impressão de terem se cansado dele?
A resposta pode estar nesses milhões que, no domingo, simplesmente não apareceram. Eles ficaram em casa, mas o silêncio deles fez muito barulho.



