Brasília, 07/03/2026

O marqueteiro de Flávio Bolsonaro

Luiz Carlos Bordoni

A notícia de que Flávio busca um marqueteiro associado a campanhas de perfil mais moderado sinaliza algo evidente: há um esforço de reposicionamento. A pergunta central não é quem é o marqueteiro. É porque a mudança de rota.

O que há com o rapaz? Dilema da herança? Afinal, Flávio é, antes de tudo, o candidato do pai — Jair Bolsonaro. E isso é força e peso ao mesmo tempo. Força, porque herda a base fiel, ideológica, mobilizada. Peso, porque carrega a rejeição consolidada e a imagem polarizadora.

A tentativa de construir um perfil “moderado, equilibrado, sensato” enfrenta um obstáculo estrutural: identidade política não se troca como figurino. A biografia digital está aí — vídeos, discursos, votações, alinhamentos.

Ao marqueteiro, é missão impossível? Não, necessariamente. Mas é complexa. A política brasileira já viu reembalagens bem-sucedidas. Lula, em 2002, fez a “Carta ao Povo Brasileiro” e suavizou o discurso. Caiado, que tinha imagem combativa no Congresso, tornou-se governador com discurso técnico e gestor. A diferença é que ambos tinham margem de manobra narrativa.

No caso de Flávio, o vínculo com o pai é orgânico, familiar e político. Não é apenas ideológico. Ele não é um aliado eventual — é o filho e herdeiro político direto. A moderação, se vier, terá que parecer evolução, não ruptura. E isso exige coerência.

O cálculo estratégico. A direita brasileira enfrenta um impasse: 1) se radicaliza, mantém a base mais fiel; se modera, amplia o eleitorado, mas arrisca perder o entusiasmo da militância.

A contratação de um marqueteiro com histórico de campanhas mais amplas pode indicar que o objetivo é conquistar o eleitor conservador não ideológico — aquele que vota por economia, estabilidade e governabilidade, não por guerra cultural.

O problema é que a base bolsonarista valoriza autenticidade. Se perceber “maquiagem”, reage.

Aí você pergunta: o eleitor aceita a metamorfose? O eleitor brasileiro aceita mudança quando ela parece real e útil. Mas rejeita quando soa oportunista. Nessa situação, Flávio terá que responder, implicitamente, a algumas perguntas. Por exemplo: ele representa continuidade ou renovação? Será sombra ou protagonista? A moderação é estratégia eleitoral ou convicção?

Concluindo o diagnóstico sobre a missão do tal especialista: ela não é impossível, mas dar essa nova posição a Flávio é uma travessia estreita.

Se mantiver o discurso do pai e apenas suavizar o tom, o 01 pode ampliar o alcance sem romper a base. Se parecer negar o passado, pode perder a identidade. Se ficar no meio-termo mal resolvido, vira caricatura.

No fim, a eleição será menos sobre marketing e mais sobre contexto: economia, desgaste do governo atual, humor social e capacidade de articulação no Congresso. Marqueteiro ajuda, mas biografia pesa.

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