Brasília, 06/06/2026

O Pix não está sozinho no mundo

Luiz Carlos Bordoni

A recente discussão envolvendo o Pix e sistemas de pagamento americanos trouxe um aspecto interessante ao debate público: muita gente passou a acreditar que os Estados Unidos não possuem mecanismos semelhantes ao adotado pelo Brasil. Possuem.

Milhões de americanos utilizam diariamente plataformas como Venmo, Cash App, PayPal, Apple Cash e Zelle para transferir dinheiro de forma praticamente instantânea. São sistemas consolidados, populares e amplamente utilizados no comércio eletrônico e nas relações pessoais.

O Venmo tornou-se uma espécie de fenômeno cultural. Jovens o utilizam para dividir a conta do restaurante, o aluguel ou despesas de viagens. O Cash App conquistou espaço ao incorporar investimentos em criptomoedas. O PayPal continua sendo uma das maiores referências mundiais em pagamentos digitais.

O Zelle, frequentemente citado nesse debate, é talvez o mais próximo das operações bancárias tradicionais. Ele permite transferências rápidas entre contas de diferentes bancos americanos, funcionando de maneira integrada ao sistema financeiro.

Então, por que o Pix chama tanta atenção? Porque ele nasceu com uma proposta diferente. Enquanto os sistemas americanos foram desenvolvidos por empresas privadas ou consórcios bancários, o Pix foi criado pelo Banco Central e incorporado simultaneamente a praticamente todas as instituições financeiras do país.

Na prática, isso eliminou a fragmentação que existe em outros mercados. Nos Estados Unidos, muitas vezes o usuário precisa verificar se a outra pessoa utiliza o mesmo aplicativo ou se possui cadastro em determinada plataforma. No Brasil, basta uma chave Pix.

Além disso, o sistema brasileiro opera de forma contínua, sem interrupções, permitindo transferências imediatas entre qualquer banco, fintech ou cooperativa financeira. O resultado foi impressionante: somente em 2025, o Pix movimentou R$35,3 trilhões.

Curiosamente, esse crescimento monumental não destruiu o mercado privado de cartões, como sugerem algumas críticas recentes. O volume movimentado por cartões no Brasil saltou de R$1,75 trilhão, em 2019, para R$4,27 trilhões em 2025. O cartão de crédito passou de R$1,06 trilhão para R$3 trilhões, enquanto os cartões pré-pagos das fintechs cresceram de R$22 bilhões para R$319 bilhões.

Ou seja, o Pix não sufocou Visa, Mastercard e demais operadores. Pelo contrário. A digitalização acelerada da economia ampliou o mercado financeiro como um todo e acabou beneficiando também essas empresas.

A verdadeira transformação ocorreu no uso do dinheiro em espécie. Os saques em caixas eletrônicos caíram de R$3,31 trilhões para R$2,01 trilhões entre 2019 e 2025. Cerca de R$1,3 trilhão deixou de circular em papel-moeda para migrar para transações digitais instantâneas.

Outro fator decisivo é o custo. Enquanto plataformas internacionais podem cobrar taxas em determinadas modalidades de transferência, o Pix é gratuito para pessoas físicas na imensa maioria das operações.

O resultado foi uma revolução silenciosa. O dinheiro passou a circular mais rapidamente. Pequenos comerciantes reduziram custos. Consumidores ganharam praticidade. Empresas ampliaram opções de pagamento. Milhões de brasileiros foram incorporados de forma mais efetiva ao sistema financeiro.

Nada disso significa que o sistema brasileiro seja perfeito ou que não possa evoluir. Também não significa que os Estados Unidos estejam atrasados. Significa apenas que países diferentes adotaram soluções diferentes para um mesmo desafio: movimentar dinheiro com rapidez, segurança e eficiência.

No fundo, a discussão mais importante não deveria ser qual sistema é brasileiro ou americano. A pergunta correta é outra: qual modelo oferece mais comodidade, menor custo e maior inclusão para seus usuários?

E nessa discussão, o Pix certamente conquistou um lugar de destaque no cenário mundial. Com um detalhe que merece ser lembrado: ele não pertence aos bancos, às bandeiras de cartões ou às fintechs. O Pix pertence ao cidadão.

O problema do Pix não é ter derrotado os cartões. É ter provado que uma boa ideia também pode nascer fora de Wall Street.

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