Brasília, 16/06/2026

Portugal joga duro com brasileiros

 Luiz Carlos Bordoni (*)

A decisão do Parlamento de Portugal de endurecer as regras para concessão de nacionalidade acende um sinal claro — não apenas jurídico, mas político e social.

A nova legislação amplia de 5 para 7 anos o tempo mínimo de residência, restringe direitos de filhos de estrangeiros e dificulta a regularização de imigrantes da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. E, ainda que não diga isso explicitamente, atinge em cheio uma comunidade específica: os brasileiros.

Mas aqui não estamos falando apenas de imigração. Estamos falando de história.

Portugal nunca foi, para nós, um país qualquer. É a chamada pátria mãe. Foi quem nos descobriu, colonizou, explorou — e também quem nos legou a língua, a cultura, parte essencial da nossa identidade.

Temos o mesmo idioma, traços comuns, raízes compartilhadas. Há um vínculo que vai além da geografia. Somos, de certo modo, continuidade.

Por isso, quando as portas se estreitam, o impacto não é apenas burocrático. É simbólico. É quase afetivo. Como se os filhos encontrassem a casa de origem com novas regras de entrada.

Do ponto de vista português, há lógica. O país enfrenta pressões migratórias, desafios de integração e um ambiente político que, como em boa parte da Europa, caminha para o fortalecimento da identidade nacional e do controle de fronteiras. Não é um fenômeno isolado. É o espírito do tempo.

Mas, do lado brasileiro, o efeito é direto: insegurança, revisão de planos e um sentimento crescente de distanciamento. Portugal deixa de ser visto como a porta naturalmente aberta e passa a assumir uma posição mais seletiva — mais europeia, menos afetiva.

E há aí um elemento que não pode ser ignorado: a xenofobia. Ela não nasceu agora. Apenas estava adormecida.

E volta a se manifestar, em maior ou menor grau, em diversas partes do mundo — impulsionada pelo medo, pela disputa econômica e pela insegurança cultural.

Vivemos uma era de contradições. O mundo globalizado aproximou mercados, mas não aproximou corações na mesma velocidade. Facilitou deslocamentos, mas também ampliou resistências.

De um lado, países tentando proteger sua identidade. Do outro, pessoas tentando construir suas vidas. Entre esses dois movimentos, cresce a tensão.

A decisão de Portugal é, portanto, mais do que uma mudança legal. É um retrato de um mundo que se fecha um pouco mais — mesmo depois de ter aprendido a se abrir.

Resta saber se esse caminho fortalece as nações ou fragiliza aquilo que nos torna civilizados: a capacidade de acolher, de reconhecer o outro e de construir pontes.

Porque, no fim, a grande questão permanece: até que ponto se protege uma identidade fechando portas — e não ampliando horizontes?

(*) Luiz Carlos Bordoni é Jornalista

Tags

Gostou? Compartilhe!