Brasil de fato – A prisão definitiva de militares de alta patente e do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenados pela trama golpista, representa uma ruptura inédita com a tradição brasileira de “conciliar e preservar” lideranças que atentaram contra a democracia. A avaliação é da cientista política e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Mayra Goulart, em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.
“É uma ruptura com uma tradição de conciliação e pactos, e de continuidade daqueles que, de alguma maneira, se comprometeram com atividades golpistas, atividades anti-institucionais”, afirmou Goulart. Ela lembra que períodos como o Estado Novo e a ditadura militar mantiveram estruturas e lideranças golpistas em circulação, o que ajudou a perpetuar ideários antidemocráticos.
Para a professora, “esse episódio da prisão tem que continuar, tem que dar continuidade a essa proposta de fazer encerrar a fase golpista, a fase antidemocrática da nossa história. E, para isso, é importante ir nessas células de reprodução e desestimular a formação de núcleos de pensamento golpista.”
Ao avaliar o impacto eleitoral da prisão, Goulart afirmou que o cenário encerra o ciclo político da família Bolsonaro em disputas majoritárias. “Essa prisão coloca uma pá de cal na viabilidade eleitoral de Jair Bolsonaro. Um dos seus filhos, Eduardo Bolsonaro, também está caminhando para a inelegibilidade”, indicou, sobre o deputado do PL-SP, réu no Supremo Tribunal Federal (STF).
Ela apontou obstáculos também para os demais. “Flávio Bolsonaro é acusado de vários crimes de corrupção no estado do Rio de Janeiro, de rachadinhas. E Carlos Bolsonaro tem instabilidades psicológicas que também dificultam esse processo”, analisou, citando o senador e o vereador do Rio de Janeiro, respectivamente, ambos do PL.
Com isso, a cientista política considera improvável que qualquer membro da família esteja na cédula presidencial. “Não serão os próprios membros da família que, parece, levantarão essa bandeira [da extrema direita no Brasil]”, concluiu.
De acordo com Goulart, este “é um momento em que a direita está em uma crise hegemônica porque aquele que era o polo hegemônico, que orientava, ainda que de maneira errática, porque Jair Bolsonaro nunca foi um estrategista, nunca foi alguém com trânsito entre os outros parlamentares”, pontuou.
Disputa acirrada em 2026
Para 2026, a professora prevê uma disputa acirrada, com influência decisiva da extrema direita internacional. “Temos uma extrema direita global forte e articulada, que tem nas redes sociais o apoio de um algoritmo que favorece a disseminação dos seus conteúdos”, alertou.
Ela acrescentou que pesquisas podem subestimar o conservadorismo presente inclusive entre setores populares, usando como exemplo o caso argentino, com Javier Milei na presidência. “É importante que saibamos o grau de dificuldade dessas eleições e a importância que o governo e o campo progressista façam articulações para além da esquerda. Só com a esquerda essa eleição não vai ser vencida”, declarou.
Para vencer, conforme Goulart, “precisamos fazer processos de moderação de discurso, de diálogo, de concessão para que a gente saia vitorioso nesse processo eleitoral.”

