Brasília, 19/07/2026

Quando a casa fica pequena para tantos móveis

Luiz Carlos Bordoni

A jornalista Cileide Alves (O Popular) abordou, com precisão, um dos temas mais delicados da política goiana neste momento: o desafio da base governista para acomodar quatro candidaturas competitivas na disputa por apenas duas vagas ao Senado.

Concordo com sua análise. O problema existe e não é pequeno. Durante muito tempo, a preocupação da base era construir uma aliança forte para enfrentar a oposição. Agora, o cenário mudou. A dificuldade deixou de ser externa. Passou a ser interna.

A matemática não permite interpretações. Existem duas cadeiras em disputa, mas há quatro nomes competitivos. Todos pertencem ao mesmo campo político. Todos possuem história, estrutura, apoiadores, expectativas e legítimas pretensões. Nenhum entrou na disputa para servir apenas de figurante.

É aí que nasce o dilema. Na teoria, caminham juntos. Na prática, disputam o mesmo espaço eleitoral. São aliados na administração, mas concorrentes diante das urnas. Essa talvez seja a situação mais delicada que Ronaldo Caiado e Daniel Vilela terão de administrar até a eleição. Uma chapa não se sustenta apenas com afinidades políticas. Ela também depende de equilíbrio, diálogo e, principalmente, da administração das expectativas individuais.

Penso numa imagem bastante simples. É como uma família que comprou móveis de excelente qualidade. Todos são bonitos, úteis e merecem permanecer na sala. O problema é que a casa não cresceu na mesma proporção. Em determinado momento, percebe-se que não há espaço suficiente para acomodar tudo. Não significa que algum móvel seja ruim. Apenas não cabem todos ao mesmo tempo.

Na política, ocorre algo semelhante. Ninguém deseja abrir mão espontaneamente de uma candidatura construída durante anos. Cada pré-candidato acredita possuir credenciais suficientes para representar Goiás no Senado e, muito provavelmente, todos têm argumentos respeitáveis.

O desafio passa a ser outro: evitar que uma disputa legítima entre aliados transforme-se em desgaste para todo o grupo, porque, numa eleição para duas vagas, cada voto conquistado por um aliado pode representar um voto que faltará ao outro.

Essa é uma competição silenciosa. Poucos a admitem publicamente. Todos a compreendem nos bastidores. As pesquisas mostram um quadro ainda aberto. Nenhum dos principais nomes alcança patamares capazes de definir antecipadamente o resultado. Há um contingente expressivo de eleitores que ainda não consolidou sua escolha. Isso significa que a campanha propriamente dita ainda terá enorme peso.

É cedo para decretar vencedores. Também é cedo para imaginar derrotados. Mas já é possível afirmar que o maior desafio da base governista talvez não seja vencer a oposição. Será administrar a própria força, porque, às vezes, o excesso de bons nomes cria dificuldades tão grandes quanto a falta deles.

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