Brasília, 07/03/2026

Artigo – Racistas, xenófobos. Canalhas.

Luiz Carlos Bordoni (*)

A Europa foi, durante séculos, farol cultural do mundo. Das catedrais góticas ao Iluminismo, de Shakespeare a Beethoven, dali saíram ideias que moldaram a civilização ocidental. Mas o mesmo continente que produziu Voltaire também produziu Auschwitz. A história europeia sempre conviveu com luz e sombra.

Nos últimos anos, a sombra parece ganhar espaço. Crescem partidos ultranacionalistas, discursos xenófobos e manifestações abertas de racismo. A imigração virou combustível eleitoral. O estrangeiro, em certos ambientes, passou a ser tratado como ameaça. Em algumas ruas, a intolerância deixou de ser sussurro e virou palavra de ordem.

No Leste Europeu, a guerra entre Rússia e Ucrânia reabre feridas históricas que remontam ao período soviético, sob líderes como Josef Stalin e Nikita Kruschev. A rivalidade não nasceu ontem — mas a violência atual expõe o fracasso de décadas de diplomacia.

A retórica hostil atravessou o Canal da Mancha e chegou ao Reino Unido. Cruzou o Atlântico. Nos Estados Unidos, o ambiente polarizado reacende fantasmas antigos. A sombra da Ku Klux Klan volta ao debate público sempre que discursos raciais ganham espaço. O próprio Donald Trump tornou-se símbolo dessa era de confrontos identitários intensos, goste-se ou não.

Enquanto isso, movimentos por igualdade continuam resistindo. A luta pelos direitos civis não terminou. Ela apenas mudou de trincheira.

Estamos involuindo? A humanidade se desumaniza? Talvez não estejamos voltando às cavernas — mas estamos testando os limites da convivência civilizada. O homem pré-histórico enfrentava feras para sobreviver. O homem moderno enfrenta o outro homem por medo, poder ou identidade.

A história mostra que ondas de intolerância vêm e vão. O perigo está em normalizá-las. Quando o preconceito deixa de constranger, ele se institucionaliza. E quando se institucionaliza, corrói democracias por dentro.

A Europa não deixou de ser berço cultural. Mas nenhum berço está imune a crises morais. A pergunta não é se o vírus da intolerância existe. Ele existe. A pergunta é se as instituições democráticas e a consciência coletiva terão anticorpos suficientes para contê-lo.

Civilização não é herança permanente. É construção diária.

Luiz Carlos Bordoni é Jornalista.

Tags

Gostou? Compartilhe!