Brasília, 07/03/2026

‘Trocar Toffoli por Mendonça não resolve’, avalia cientista política sobre desdobramentos do caso do Banco Master

A saída do ministro Dias Toffoli da relatoria do inquérito que investiga as fraudes do Banco Master, anunciada na última quinta-feira (12) após pressão dos pares, não deve ser vista como solução para o escândalo. A avaliação é da cientista política e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Rosemary Segurado, que alerta para os riscos de uma “cortina de fumaça” e para a necessidade de investigar todos os envolvidos, dentro e fora do Judiciário.

“Quem substitui Toffoli? Mendonça, indicado por Bolsonaro, com ligações estreitas com o Centrão. Eu gostaria de dizer que a investigação vai avançar, mas tenho muitas dúvidas”, afirmou ao Conexão BdF da Rádio Brasil de Fato Para ela, o foco excessivo na figura do ministro pode desviar a atenção de outros responsáveis, como o Banco Central durante a gestão de Roberto Campos Neto. “Ao que tudo indica, o BC fez vista grossa ou negligenciou. Isso ocorreu naquele período.”

Segurado reconhece que as relações de Toffoli com o dono do Banco Master, reveladas por perícia no celular de Daniel Vorcaro, são “no mínimo inaceitáveis para um ministro da Corte”. No entanto, ela critica a abordagem da mídia comercial. “Pode ser uma reedição da Lava Jato, uma cortina de fumaça para não julgar quem precisa ser julgado e para demonizar um poder que é importante para a democracia — como vimos na atuação contra o golpe de 8 de janeiro.”

Pesquisa Genial/Quaest divulgada na quarta-feira (11) revelou que 82% dos brasileiros consideram necessário um código de ética para o Supremo Tribunal Federal. O dado, para Segurado, é um recado claro. “A população não aceita que ministros viajem em jatos particulares de envolvidos em escândalos, que participem de eventos com diárias pagas por quem tem interesses na Corte. Isso mancha a imagem do STF.”

Ela defende que as normas existentes, se já estão em vigor, são “muito flexíveis ou insuficientes”. “Quando alguém paga uma diária exorbitante a um ministro, é legítimo perguntar: que interesses estão por trás disso? O STF é um pilar da democracia, não pode pairar suspeita sobre ele.”

Revisão da Lei da Anistia: um passo contra a impunidade

Segurado também comentou o voto do ministro Flávio Dino favorável à revisão da Lei da Anistia de 1979, para permitir a punição de agentes públicos envolvidos em ocultação de cadáveres durante a ditadura militar, como no caso da Guerrilha do Araguaia. O ministro Alexandre de Moraes pediu vista e o julgamento foi suspenso.

“Finalmente, depois de tanto tempo de redemocratização, nós podemos dar um passo importante para passar a limpo esse passado. Só vamos poder dizer ‘nunca mais ditadura, nunca mais tortura’ quando os responsáveis por mortes, tortura e ocultação de cadáveres forem julgados e responsabilizados”, afirmou.

A professora relacionou a impunidade histórica aos ataques recentes à democracia. “Se permanece impune desde 1964, vão continuar cometendo crimes, como tentaram em 2022. É preciso paralisar isso.”

Cenário eleitoral: Flávio Bolsonaro se consolida e o centro encolhe

A pesquisa Genial/Quaest também trouxe novidades sobre a corrida presidencial. O governador do Paraná, Ratinho Júnior (PSD), que chegou a ser cogitado como candidato do chamado “centro moderado”, perdeu espaço. Para Segurado, o dado mostra a consolidação da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL).

“Quando foi lançada, muita gente disse que não tinha estatura, que era impossível. Desconsideraram o recall importante do nome Bolsonaro. Isso mostra que o bolsonarismo ainda tem força e que o ambiente político continua extremamente polarizado”, analisou.

A cientista política vê um movimento semelhante ao que ocorreu no Chile, onde a extrema direita polarizou diretamente com a esquerda, e as candidaturas “moderadas” acabaram servindo como linhas acessórias. “Ratinho, Caiado e outros podem não ter espaço próprio. Talvez a estratégia seja se juntar num segundo turno contra Lula, mas o cenário ainda está em aberto.”

Ela pondera que, em fevereiro, tudo é fluido. “É uma foto do momento. Mas me parece que não há espaço para o centro. Estamos num momento político global de polarização. E isso se reflete no Brasil.” (Brasil de Fato)

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