Brasília, 22/09/2026

Zuenir Ventura, mestre do jornalismo brasileiro, morre aos 95 anos

O jornalista e escritor Zuenir Ventura, um dos nomes mais importantes da imprensa brasileira, morreu nesta terça-feira (22), aos 95 anos, em sua casa, no Rio de Janeiro. Durante uma carreira de sete décadas, ele transformou grandes acontecimentos políticos e sociais em reportagens e livros que ajudaram o país a compreender a ditadura militar, a violência urbana, a desigualdade e a luta pela preservação da Amazônia. A morte foi confirmada pela Academia Brasileira de Letras (ABL). A causa não havia sido divulgada até a publicação deste texto.

Repórter, editor, professor, cronista e escritor, Zuenir deixa uma obra marcada pela defesa dos direitos humanos, pela apuração rigorosa e por uma escrita clara, capaz de aproximar o leitor de personagens e conflitos complexos. Foi autor de “1968 — O Ano que Não Terminou”, clássico sobre a geração que enfrentou a ditadura, e de “Cidade Partida”, uma das mais importantes reportagens em livro sobre as divisões sociais do Rio de Janeiro.

Zuenir Carlos Ventura nasceu em 1º de junho de 1931, em Além Paraíba, Minas Gerais. Passou parte da infância em Ponte Nova e, aos 11 anos, mudou-se com a família para Nova Friburgo, na Região Serrana do Rio.

Filho de um pintor de paredes, começou a trabalhar ainda menino. Acompanhou o pai no ofício, foi contínuo, faxineiro e balconista. Aluno bolsista, também passou a dar aulas para estudantes mais novos, experiência que despertou sua vocação para o magistério.

Mais tarde, mudou-se para o Rio de Janeiro e ingressou no curso de Letras Neolatinas da antiga Faculdade Nacional de Filosofia, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro. Entre seus professores estavam nomes como Manuel Bandeira e Alceu Amoroso Lima.

A entrada no jornalismo ocorreu em 1956, quando começou a trabalhar como arquivista na “Tribuna da Imprensa”, jornal dirigido por Carlos Lacerda. Da organização dos arquivos, avançou para a redação e construiu uma trajetória que atravessaria algumas das principais publicações do país.

No início da década de 1960, recebeu uma bolsa para estudar no Centro de Formação de Jornalistas de Paris. De volta ao Brasil, trabalhou no “Correio da Manhã”, “O Cruzeiro”, “Fatos & Fotos”, “Visão”, “Veja”, “IstoÉ” e “Jornal do Brasil”, além de manter durante anos uma coluna em “O Globo”.

Exerceu praticamente todas as funções de uma redação. Foi repórter, redator, editor internacional, chefe de reportagem, editor-chefe e diretor de redação. Paralelamente, lecionou na UFRJ e na Escola Superior de Desenho Industrial da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Na Esdi, participou do grupo inicial de professores e ficou responsável, a partir de 1963, pela disciplina de Comunicação Verbal.

Entre alunos e colegas, ficou conhecido como “Mestre Zu”. O tratamento afetivo resumia uma característica reconhecida por diferentes gerações: Zuenir não apenas produzia grandes reportagens, mas ensinava jornalismo no cotidiano, pelo exemplo, pelo cuidado com o texto e pela disposição para ouvir.

A vida pessoal também foi atravessada pela política. Em 1968, depois da decretação do Ato Institucional nº 5, Zuenir e a mulher, a jornalista Mary Akiersztein Ventura, foram presos e levados ao Departamento de Ordem Política e Social, o Dops, no Rio. Mary ficou detida por um mês. Zuenir permaneceu preso durante três meses, parte do período ao lado dos escritores Ziraldo e Hélio Pellegrino.

Duas décadas depois, ele transformaria as lembranças daquele período em “1968 — O Ano que Não Terminou”. Publicado no fim dos anos 1980, o livro reconstruiu as manifestações estudantis, a efervescência cultural, os debates da esquerda, a resistência ao regime e a escalada da repressão que culminou no AI-5.

A obra tornou-se referência para compreender não apenas aquele ano, mas os efeitos prolongados da ditadura sobre a sociedade brasileira. Segundo a ABL, o livro alcançou dezenas de edições e mais de 400 mil exemplares vendidos. Também serviu de inspiração para a minissérie “Anos Rebeldes”, exibida pela TV Globo em 1992.

A capacidade de Zuenir de combinar investigação, presença no local dos acontecimentos e construção narrativa voltou a aparecer na cobertura do assassinato do seringueiro e líder ambientalista Chico Mendes, morto em dezembro de 1988, no Acre.

Enviado pelo “Jornal do Brasil”, o repórter percorreu o estado, conversou com seringueiros, trabalhadores rurais, autoridades e pessoas próximas ao ambientalista. A série “O Acre de Chico Mendes” recebeu, em 1989, os prêmios Esso e Vladimir Herzog de Jornalismo.

Anos mais tarde, Zuenir voltou ao Acre para reconstituir o crime, acompanhar seus desdobramentos e examinar o destino dos personagens envolvidos. O trabalho resultou no livro “Chico Mendes — Crime e Castigo”, lançado em 2003.

A reportagem produziu ainda uma relação que ultrapassou as páginas do jornal. Zuenir conheceu no Acre Genésio Ferreira da Silva, adolescente que testemunhara o assassinato de Chico Mendes. O jornalista e Mary acolheram o rapaz em sua casa, no Rio, onde ele viveu dos 13 aos 21 anos.

Outro marco de sua carreira foi “Cidade Partida”, publicado em 1994. O livro nasceu da convivência do jornalista com moradores de Vigário Geral depois da chacina de agosto de 1993, quando 21 pessoas foram assassinadas por policiais militares na comunidade da Zona Norte do Rio.

Durante meses, Zuenir acompanhou o cotidiano da favela e a mobilização de moradores que procuravam reagir à violência. O resultado foi um retrato das fronteiras sociais que separavam territórios, oportunidades e direitos dentro da mesma cidade.

O título ultrapassou os limites do livro e passou a ser usado para definir a segregação urbana brasileira. “Cidade Partida” recebeu reconhecimento no Prêmio Jabuti e tornou-se leitura fundamental para quem busca compreender a combinação de pobreza, ausência do Estado, tráfico de drogas, violência policial e exclusão social.

Zuenir também escreveu “Minhas Histórias dos Outros”, reunião de perfis e memórias sobre personagens com quem conviveu, entre eles Carlos Drummond de Andrade, Glauber Rocha, Betinho e Chico Mendes; “Mal Secreto — Inveja”; “1968 — O Que Fizemos de Nós”; e “Sagrada Família”, romance inspirado em lembranças da infância e da adolescência.

Em seus livros, a reportagem nunca aparecia separada do interesse pelas pessoas. Zuenir procurava compreender como os grandes acontecimentos atingiam indivíduos concretos. Em vez de transformar os personagens em meras ilustrações de uma tese, permitia que suas histórias conduzissem a narrativa.

Essa maneira de trabalhar fez dele um dos principais representantes do jornalismo literário brasileiro. Sua escrita era sofisticada sem ser rebuscada, próxima do leitor sem abandonar a precisão e sensível sem ceder ao sentimentalismo fácil.

Em outubro de 2014, Zuenir foi eleito para a cadeira número 32 da Academia Brasileira de Letras, na sucessão do escritor Ariano Suassuna. Tomou posse em março de 2015 e passou a conviver oficialmente com uma instituição que reunia as duas dimensões de sua trajetória: o jornalismo e a literatura.

Ao longo da carreira, recebeu algumas das principais distinções da imprensa e da literatura nacionais. Além dos prêmios Esso, Vladimir Herzog e Jabuti, foi um dos homenageados, em 2008, com o Troféu Especial de Imprensa da Organização das Nações Unidas, concedido a profissionais que se destacaram na defesa dos direitos humanos.

Apesar de ter acompanhado períodos especialmente duros da história brasileira, Zuenir cultivava o otimismo como princípio de vida. Em depoimento ao Museu da Imagem e do Som, em 2011, afirmou que possuía uma qualidade então “fora de moda”: o otimismo. Disse esperar que, quando morresse, ele tivesse voltado à moda.

A frase ajuda a resumir sua personalidade. Zuenir conheceu a pobreza, trabalhou desde menino, enfrentou a prisão política, cobriu assassinatos, chacinas, desigualdades e crises institucionais. Ainda assim, preservou o humor, a curiosidade e a confiança na capacidade das pessoas de transformar a realidade.

Casado com Mary desde 1962, Zuenir deixa a mulher, os filhos Elisa e Mauro Ventura e os netos Alice e Eric. A parceria com Mary atravessou mais de seis décadas, da experiência da prisão durante a ditadura à consagração profissional e literária.

Com a morte de Zuenir Ventura, o Brasil perde mais do que um grande escritor ou um repórter premiado. Perde um jornalista que soube estar presente nos acontecimentos sem se colocar acima deles; que investigou as fraturas do país sem perder a atenção pelas pessoas; e que fez da reportagem uma forma de conhecimento, memória e compromisso público.

Sua obra permanece como testemunho de uma época e como lição para as novas gerações. Em tempos de velocidade, superficialidade e polarização, Zuenir deixa a lembrança de um jornalismo paciente, humano e rigoroso — aquele que vai ao local, escuta todos os lados, recupera o contexto e entrega ao leitor não uma verdade pronta, mas os elementos necessários para compreender o mundo.

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