Brasília, 16/10/2026

Lula na Globo: a experiência de um veterano e o desafio de convencer

Luiz Carlos Bordoni

A entrevista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à jornalista Renata Lo Prete, na TV Globo, merece uma avaliação que ultrapasse as simpatias e antipatias partidárias. Afinal, estamos diante de um presidente que busca mais um mandato, depois de uma longa trajetória política, e que enfrenta uma disputa eleitoral extremamente equilibrada.

Lula apresentou-se mais moderado, menos agressivo e aparentemente disposto a reconhecer dificuldades. Admitiu que seu governo não conseguiu comunicar adequadamente suas realizações e assumiu a responsabilidade pelos problemas administrativos e políticos. Foi um reconhecimento importante, embora insuficiente para explicar o desgaste de sua imagem.

A questão central é que a comunicação pode contribuir para a impopularidade de um governo, mas não explica tudo. Quando o cidadão enfrenta endividamento, insegurança e dificuldades para fechar as contas domésticas, não basta afirmar que as realizações governamentais foram mal divulgadas. O eleitor julga, sobretudo, aquilo que experimenta no cotidiano.

Um dos momentos mais surpreendentes da entrevista ocorreu quando Lula defendeu a redução da maioridade penal para 16 anos nos casos de crimes hediondos. Trata-se de uma posição que contrasta com o discurso historicamente predominante em seu campo político.

A declaração pode representar uma revisão de entendimento diante da gravidade da criminalidade brasileira. Mas também pode ser interpretada como uma tentativa de aproximação com o eleitorado preocupado com a segurança pública, tema no qual a oposição tem procurado construir sua vantagem.

Seja qual for a motivação, a proposta exige mais que uma declaração eleitoral. Reduzir a maioridade penal envolve mudanças constitucionais, discussões sobre o sistema prisional e avaliação dos efeitos reais sobre a criminalidade. Não é solução simples para um problema complexo.

Outro momento relevante foi a manifestação sobre o Supremo Tribunal Federal. Lula defendeu a investigação de suspeitas envolvendo integrantes da Corte e reconheceu a necessidade de discutir uma reforma do Judiciário.

É uma posição politicamente significativa. A crise de credibilidade das instituições judiciais não pode ser ignorada por nenhum governante. A sociedade exige transparência, responsabilidade e igualdade perante a lei, independentemente da posição ocupada pelo investigado.

Mas o presidente poderia ter avançado mais, explicando quais reformas efetivamente defenderia, especialmente quanto aos critérios de escolha dos ministros, à duração dos mandatos e aos mecanismos de prevenção de conflitos de interesses.

Na economia, Lula manteve sua conhecida defesa das políticas sociais e da valorização do salário mínimo. Falou sobre o endividamento das famílias, a necessidade de ampliar oportunidades e as iniciativas voltadas aos microempreendedores.

São preocupações legítimas. Entretanto, a entrevista deixou espaço para dúvidas sobre o controle dos gastos públicos, o crescimento da dívida e a sustentabilidade financeira de novas promessas.

O fim da escala 6×1 e a ideia de transporte gratuito nos fins de semana foram apresentados como perspectivas favoráveis aos trabalhadores. São propostas de evidente apelo popular, mas que precisam ser acompanhadas de respostas sobre custos, produtividade, financiamento e impactos sobre empresas e municípios.

Na política externa, Lula procurou demonstrar capacidade de diálogo com Donald Trump, apesar das divergências comerciais e políticas entre Brasil e Estados Unidos. Foi uma tentativa de transmitir a imagem de estadista experiente, capaz de negociar sem abrir mão dos interesses nacionais.

O desempenho geral mostrou um Lula que conhece os mecanismos do poder, domina a linguagem política e sabe utilizar a experiência acumulada. Entretanto, em determinados momentos, pareceu mais preocupado em defender o passado do que em apresentar um projeto suficientemente claro para o futuro.

E aqui está, a meu ver, o principal problema de sua entrevista.

O eleitor que já apoia Lula encontrou argumentos para continuar apoiando. O eleitor que o rejeita provavelmente não ouviu razões suficientes para mudar de opinião e aquele que ainda está indeciso precisa de respostas mais concretas.

A entrevista não foi um desastre, tampouco uma demonstração incontestável de superioridade política. Teve acertos, reconhecimentos importantes, mudanças de posição e lacunas que merecem ser examinadas.

Faltou, sobretudo, transformar a experiência de governo numa proposta renovada para o país. Não basta demonstrar o que foi realizado. É necessário convencer a sociedade de que os problemas ainda existentes poderão ser enfrentados com maior eficiência.

Na reta final do segundo turno, Lula disputa votos com Flávio Bolsonaro num ambiente de forte polarização. Cada palavra, cada gesto e cada contradição podem ter importância.

A entrevista mostrou que o presidente compreendeu a necessidade de ajustar seu discurso. Resta saber se conseguirá transformar essa mudança de tom em recuperação de confiança, porque, numa eleição tão equilibrada, o desafio não é apenas falar aos que já acreditam. É convencer aqueles que ainda duvidam e, para isso, a experiência ajuda, mas não substitui a credibilidade.

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