A pesquisa Datafolha divulgada na segunda-feira, 23 de março, colocou o ex-ministro Ciro Gomes (PSDB) em posição de vantagem na largada da disputa pelo governo do Ceará e acendeu o sinal de alerta no campo governista. Levantamento encomendado pelo jornal O Povo mostra Ciro com 47% das intenções de voto, diante de 32% do governador Elmano de Freitas (PT), num cenário que reforça a avaliação, já corrente nos bastidores, de que o pedetista segue como o nome mais competitivo da oposição para enfrentar o grupo governista em 2026.
Os números têm peso político porque recolocam Ciro no centro do jogo estadual num momento em que sua movimentação vinha sendo observada com cautela por aliados e adversários. Mais do que liderar o primeiro turno, o ex-ministro aparece também em situação confortável numa eventual rodada final, com 56% das intenções de voto contra 37% de Elmano. O desempenho sugere que Ciro preserva densidade eleitoral, capacidade de transferência de voto e apelo suficiente para furar a barreira da polarização local entre governismo e oposição tradicional.
O levantamento também ajuda a delimitar o tamanho do problema para o Palácio da Abolição. Em um cenário sem Ciro, Elmano mostra mais fôlego e derrota o ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio (União Brasil) por 52% a 36% num eventual segundo turno. A leitura, entre operadores políticos, é que o atual governador enfrenta hoje um adversário específico mais perigoso do que um campo oposicionista difuso. Isso tende a aumentar a pressão para que a oposição caminhe unificada em torno de um nome capaz de concentrar o voto anti-PT.
No entorno de Ciro, a pesquisa funciona como incentivo para ampliar conversas e retomar articulações que haviam esfriado. A liderança numérica fortalece o ex-ministro como peça central de qualquer aliança mais robusta e o reposiciona não apenas como candidato viável, mas como eixo em torno do qual diferentes setores podem se organizar. No Ceará, onde a política costuma ser movida por força regional, capilaridade e capacidade de montar palanques amplos, largar na frente tem valor estratégico na montagem das chapas e na distribuição de apoios.
Do lado governista, a aposta tende a continuar assentada na força da máquina estadual, na associação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e na presença consolidada do PT no interior. A avaliação entre aliados de Elmano é que a campanha ainda está distante e que há espaço para recuperação quando o debate eleitoral ganhar as ruas. Ainda assim, o retrato revelado pelo Datafolha aumenta a necessidade de o governador defender sua gestão com mais intensidade e evitar que a oposição cristalize desde cedo a narrativa de favoritismo de Ciro.
O pano de fundo dessa movimentação passa também pela tentativa de Ciro de reconstruir pontes fora de seu campo tradicional. No fim do ano passado, ele buscou aproximação com o PL, num movimento que foi visto como pragmático por aliados, mas que encontrou resistência dentro do bolsonarismo. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro reagiu publicamente contra uma aliança no Ceará e chegou a defender o senador Eduardo Girão como nome preferencial desse campo político no Estado. O episódio expôs que, embora Ciro tenha peso eleitoral, sua aproximação com a direita ainda enfrenta obstáculos ideológicos e disputas de espaço.
Essas negociações, porém, não tendem a desaparecer. Com a busca do senador Flávio Bolsonaro por palanques regionais para sua pré-campanha presidencial, o Ceará volta a ser visto como território estratégico, e a força demonstrada por Ciro pode reabrir conversas antes travadas. O desafio está em conciliar interesse eleitoral com resistências políticas acumuladas ao longo dos últimos anos.
Além de Ciro e Elmano, a pesquisa mostra o senador Eduardo Girão (Novo) com 5%, enquanto Jair Pereira (PSOL) e Zé Batista (PSTU) aparecem com 2% cada. Brancos e nulos somam 10%, e 2% disseram não saber em quem votar.
O Datafolha ouviu 816 eleitores entre os dias 16 e 18 de março. A margem de erro é de três pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado no Tribunal Superior Eleitoral sob os números CE-07925/2026 e BR-05068/2026.


