Brasília, 13/06/2026

Trump, o púlpito e o poder

Luiz Carlos Bordoni

Há algo de profundamente inquietante no tempo em que vivemos. Não apenas pelas guerras, pelas tensões ou pelas disputas políticas, mas pela forma como certos líderes passaram a se enxergar e, mais grave ainda, a se apresentar ao mundo.

O episódio recente envolvendo Donald Trump e o papa Leão XIV é mais do que um embate de opiniões. É um retrato de duas visões de mundo em choque. De um lado, um líder religioso que reafirma sua missão de pregar a paz, o diálogo e a conciliação. Do outro, um político que reage com ataques, desqualificação e simplificação.

Trump chamou o papa de “fraco”. O papa respondeu com serenidade: não teme o governo americano e seguirá proclamando a mensagem do Evangelho. A diferença de postura não poderia ser mais simbólica. Enquanto um eleva o tom, o outro eleva o conteúdo.

Mas há algo além disso. Trump não se limita a fazer política. Ele constrói uma narrativa de poder absoluto, quase messiânico. Não no sentido religioso tradicional, mas no sentido de se colocar como centro da verdade, da justiça e da ordem. Um líder que não apenas governa, mas que se apresenta como aquele que “corrige”, “salva” e “define” o rumo das coisas.

Esse tipo de construção não é nova na história. Mas, no mundo contemporâneo, ela ganha força através das redes sociais, da comunicação direta, da ausência de mediação. O líder fala, o público reage, e o ciclo se retroalimenta.

O problema é quando a política começa a invadir territórios que não lhe pertencem. Quando se tenta disputar autoridade moral com a religião. Quando se tenta transformar fé em ferramenta de poder. Quando se tenta ocupar o espaço simbólico do sagrado com discursos de confronto.

O papa foi claro ao dizer: “Não somos políticos”. E, de fato, não são. A Igreja pode errar, pode divergir, pode até se contradizer, mas a sua lógica não é a do poder imediato. É a do tempo longo, da construção de valores, da mediação espiritual.

Já Trump opera no terreno oposto: o da urgência, da polarização, da mobilização constante. E é aí que mora o risco. Porque quando um líder político passa a agir como se fosse maior do que as instituições, maior do que os processos e, em certa medida, maior até do que símbolos históricos e religiosos, entramos em uma zona perigosa.

Não se trata de exagero retórico. Trata-se de um padrão. Um padrão em que o líder não reconhece limites, não aceita contrapontos e transforma qualquer discordância em ataque. Isso não é apenas estratégia política. É um modo de operar e, desse modo, a realidade passa a ser moldada não pelo que é, mas pelo que se diz que é.

O papa fala de paz. Trump responde com confronto. O papa fala de diálogo. Trump responde com ataque. São linguagens diferentes. Mundos diferentes.

Talvez seja esse o ponto central da nossa época: não estamos apenas diante de disputas políticas. Estamos diante de disputas de significado. O que é liderança? O que é autoridade? O que é verdade?

No meio disso tudo, o mundo assiste e tenta entender se caminha para um futuro de construção… ou para um tempo em que o poder fala mais alto do que qualquer valor, porque, no fim, a questão não é quem vence o debate. É o que sobra dele.

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