Brasília, 28/06/2026

Feminicídio: mulheres negras, as maiores vítimas

Luiz Carlos Bordoni (*)

As estatísticas mais recentes revelam um retrato duro e persistente da violência de gênero no país: as mulheres negras são hoje a maioria das vítimas de feminicídio no Brasil. Entre 2021 e 2024, elas representaram de 62,6% a 68% dos casos, ou seja, mais de seis em cada dez mulheres assassinadas por razões de gênero são negras. O dado, por si só, já indica que o problema vai além da violência doméstica e escancara um componente estrutural de desigualdade.

Dez anos após a sanção da Lei do Feminicídio, o cenário ainda preocupa. Nesse período, os casos cresceram 176%, com impacto desproporcional sobre a população negra. Enquanto há indícios de redução entre mulheres brancas, os registros envolvendo mulheres negras seguem em alta, reforçando o alerta de especialistas sobre a combinação entre machismo e racismo como fatores determinantes.

A maior parte desses crimes ocorre dentro de casa, o que evidencia o caráter íntimo e recorrente da violência. Dados mostram que 66,3% dos feminicídios acontecem na residência da vítima, frequentemente praticados por parceiros ou ex-parceiros. Entre as mulheres negras que sofrem violência doméstica, 85% convivem com o agressor, um fator que aumenta o risco e dificulta a ruptura do ciclo de violência.

Esse quadro é agravado por condições sociais que ampliam a vulnerabilidade. Baixa renda, menor acesso à educação e insegurança habitacional são elementos que limitam as possibilidades de proteção e saída dessas relações abusivas. A chamada interseccionalidade, quando gênero e raça se cruzam, torna essas mulheres duplamente expostas à violência.

Outro ponto sensível é a possível subnotificação. Estudos indicam que homicídios de mulheres negras nem sempre são corretamente enquadrados como feminicídio, o que pode mascarar ainda mais a dimensão real do problema e dificultar a formulação de políticas públicas eficazes.

Especialistas apontam que o enfrentamento desse cenário exige mais do que ações genéricas. É necessário investir em políticas públicas com recorte claro de raça e gênero, ampliar a rede de proteção, garantir acesso à justiça e fortalecer mecanismos de acolhimento. Sem isso, o país corre o risco de perpetuar uma desigualdade que, em muitos casos, termina em morte.

O desafio é urgente: transformar números em ação e romper um ciclo que atinge, de forma desproporcional, as mulheres negras brasileiras.

(*) Luiz Carlos Bordoni é jornalista

Contato – luizcarlosbordoni@gmail.com

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