Luiz Carlos Bordoni
A poeira começou a subir no curral da política brasileira. E não foi por acaso. A reunião convocada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil para discutir o cenário eleitoral ganhou contornos dramáticos após a crise envolvendo o senador Flávio Bolsonaro no caso Master. O agronegócio, que até aqui via nele o nome mais competitivo contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, passou a olhar para o candidato como o peão que já não domina o touro.
A metáfora do rodeio caiu como luva. Flávio entrou na arena tentando demonstrar firmeza, mas o animal ficou bravo demais. A cada nova explicação mal dada, a cada versão contraditória, a cada silêncio estratégico, o touro ganhou força. O problema político nem é apenas o escândalo em si. A política brasileira convive com escândalos há décadas. O que assusta aliados, empresários e lideranças do agro é a sensação de improviso, de descontrole e de incapacidade de administrar a própria crise.
Nos bastidores do setor produtivo, o clima já não é de apoio entusiasmado. É de observação cautelosa. Os grandes produtores, cooperativas e federações estaduais sabem que eleição presidencial não é cavalgada de domingo. Exige confiança, previsibilidade e estabilidade. E confiança, no mundo político, é como cristal: quando quebra, pode até ser colado, mas nunca volta a ser exatamente igual.
É aí que entram as artimanhas “trumpistas” que começam a ser desenhadas. A viagem aos Estados Unidos e o esforço para construir uma imagem de proximidade com o presidente Donald Trump fazem parte de uma tentativa clássica de mudar o eixo do debate. Sai o noticiário sobre denúncias, entra a narrativa do líder conservador perseguido pelo sistema. Sai o caso Master, entra o discurso de guerra cultural, patriotismo, soberania e enfrentamento às elites políticas e judiciais.
O problema é que o roteiro já é conhecido demais. Trump transformou conflitos em combustível político. Alimentou crises para sobreviver a elas. Criou fatos novos diariamente para soterrar fatos antigos. E isso pode começar a ser tentado no Brasil de forma ainda mais intensa a partir desta semana. O bolsonarismo sabe que não precisa necessariamente apagar a crise; precisa apenas dividir a atenção pública e incendiar novamente sua base militante.
Nas redes sociais, o movimento tende a seguir uma lógica previsível: criação de novos inimigos, ataques ao Supremo, discursos contra a imprensa, denúncias vagas de perseguição política e produção permanente de factóides. O objetivo é impedir que a crise amadureça no imaginário popular. Quando a opinião pública começa a refletir, o marketing político entra em ação para produzir adrenalina emocional.
Mas há uma diferença importante entre os Estados Unidos de Trump e o Brasil de hoje. O agronegócio brasileiro é pragmático. Pode até embarcar em discursos ideológicos em determinados momentos, mas, no fundo, pensa em estabilidade econômica, crédito, exportação, dólar, mercado internacional e previsibilidade institucional. O produtor rural pode gostar do discurso duro, mas não gosta de turbulência prolongada.
Por isso a reunião da CNA se tornou tão simbólica. Ela não representa apenas uma discussão eleitoral. Representa um setor poderoso tentando decidir se continua apostando em um cavalo ferido ou se começa a procurar outra montaria para atravessar 2026. O problema é que as alternativas ainda não empolgam. Ronaldo Caiado não consegue romper a barreira regional. Romeu Zema enfrenta resistências políticas fora do Sul e Sudeste. E nomes mais radicais ainda são vistos como aventuras eleitorais.
No fim, o agro talvez faça aquilo que a política brasileira mais conhece: apoiar desconfiando. Votar envergonhado. Defender sem entusiasmo. Permanecer ao lado do candidato, enquanto observa, em silêncio, se ele consegue continuar montado no touro. Porque, quando o peão cai, o boi passa por cima. E, na política, a boiada raramente espera os feridos se levantarem.



