Brasília, 05/06/2026

De protagonistas a aliados?

Luiz Carlos Bordoni

A política tem uma linguagem própria. Nem sempre o que importa é o discurso. Muitas vezes, o sinal mais importante está na fotografia.

A imagem de Flávio Bolsonaro, Romeu Zema e Ronaldo Caiado brindando juntos em Minas Gerais chamou atenção justamente por isso. Os três são pré-candidatos à Presidência da República. Em tese, disputam o mesmo espaço político. Mas, ao dividirem o palco e pregarem unidade contra Lula, acabaram transmitindo uma mensagem diferente daquela que se espera de candidatos que pretendem liderar um projeto nacional.

Caiado e Zema construíram suas pré-candidaturas defendendo perfis próprios. O goiano apostou na experiência administrativa, na segurança pública e na ligação com o agronegócio. O mineiro buscou se apresentar como gestor liberal e administrador eficiente. Ambos tentaram ocupar o espaço de uma direita que não dependesse exclusivamente do sobrenome Bolsonaro. Entretanto, as pesquisas divulgadas ao longo dos últimos meses mostraram dificuldades para transformar reconhecimento regional em competitividade nacional, enquanto Flávio permaneceu como principal herdeiro político do capital eleitoral do pai.

É justamente aí que o encontro ganha significado. Quando dois postulantes ao Planalto dividem o protagonismo com um concorrente direto e falam em união futura, o mercado político interpreta o gesto como uma sinalização de acomodação. Não significa necessariamente desistência. Mas significa o reconhecimento de que a disputa pelo comando do campo conservador continua gravitando em torno do bolsonarismo.

A questão central não é quem apareceu na fotografia. É quem saiu maior dela. E, sob esse aspecto, muitos observadores entendem que o principal beneficiário foi Flávio Bolsonaro. Afinal, ao reunir ao seu lado dois governadores que também sonham com a Presidência, o senador reforça a percepção de que continua sendo a referência obrigatória da direita na corrida contra Lula.

Talvez seja cedo para falar em renúncia de projetos ou retirada de candidaturas. A política brasileira já ensinou inúmeras vezes que alianças mudam e pesquisas também. Mas a fotografia de Minas deixou uma impressão difícil de ignorar: naquele palco havia três pré-candidatos. Porém, para muitos eleitores, apenas um ocupava o centro da cena.

E, em política, quem ocupa o centro da cena raramente é visto como coadjuvante.

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