A classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas pelos Estados Unidos ainda não produziu efeitos concretos na cooperação policial entre os dois países, segundo o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Ele afirmou que a PF sequer foi comunicada oficialmente sobre a medida e tomou conhecimento da decisão pela imprensa. Apesar disso, ressaltou que a política brasileira de combate ao crime organizado não será alterada, pois continua baseada na integração entre forças de segurança, no enfraquecimento financeiro das organizações criminosas e na prisão de suas lideranças. Informações da TV Globo e G1.
Andrei avalia, no entanto, que a decisão americana pode abrir espaço para ampliar a cooperação internacional, especialmente em áreas como troca de informações de inteligência, prisão de foragidos brasileiros nos Estados Unidos e combate ao tráfico internacional de armas. Segundo ele, qualquer país interessado em enfrentar o crime organizado encontrará no Brasil um parceiro disposto a colaborar.
O tema ocorre em um contexto recente de atritos diplomáticos entre Brasil e Estados Unidos. Um dos episódios envolveu a prisão, em abril, do ex-deputado Alexandre Ramagem, condenado pelo Supremo Tribunal Federal por tentativa de golpe de Estado e considerado foragido pela Justiça brasileira. Preso inicialmente por autoridades migratórias americanas após utilizar um passaporte cancelado, Ramagem acabou sendo liberado poucos dias depois, sem que o governo brasileiro fosse informado oficialmente. O caso gerou desconforto entre os dois países.
A situação se agravou quando os Estados Unidos determinaram a saída do delegado brasileiro Marcelo Ivo de Carvalho, que atuava como oficial de ligação da Polícia Federal junto ao serviço de imigração americano e teve participação na localização de Ramagem. Washington alegou que o delegado teria tentado contornar procedimentos formais de extradição. A PF nega qualquer expulsão e afirma que o retorno do policial ao Brasil ocorreu por decisão interna. Em resposta, a corporação retirou as credenciais de um agente de imigração norte-americano que atuava em Brasília, aplicando o princípio da reciprocidade.
Outro ponto destacado pelo diretor da PF foi a necessidade de reforçar o combate ao tráfico internacional de armas. Estudos recentes apontam que organizações criminosas brasileiras passaram a ter maior acesso a armamentos de uso militar, incluindo rifles e fuzis cujas peças frequentemente têm origem nos Estados Unidos. O Atlas da Violência 2026 mostra aumento na apreensão de pistolas semiautomáticas e de armas de perfil militar, indicando uma crescente sofisticação do arsenal utilizado pelas facções.
Especialistas também alertam para possíveis impactos econômicos da classificação das facções como organizações terroristas. Segundo analistas de relações internacionais, empresas e investidores com negócios ligados aos Estados Unidos poderão enfrentar exigências mais rigorosas de controle e compliance para comprovar que não mantêm qualquer relação com grupos enquadrados nessa categoria. Isso pode elevar custos operacionais e gerar cautela adicional entre investidores estrangeiros.
Em nota oficial, o governo brasileiro reafirmou que o combate ao crime organizado é prioridade nacional, mas destacou que a cooperação internacional deve ocorrer com respeito à soberania do país. O Ministério da Justiça também reforçou que o Brasil mantém diversos acordos de cooperação jurídica e policial com parceiros internacionais e considera essa articulação fundamental para enfrentar organizações criminosas transnacionais.



