O cantor e compositor Renato Russo, fundador e vocalista da Legião Urbana, morreu há exatos 30 anos, em 11 de outubro de 1996, aos 36 anos, por complicações da Aids. A data, lembrada neste domingo, recupera a trajetória de um dos principais nomes do rock brasileiro e os momentos difíceis de seus últimos meses de vida.
Muito debilitado, o músico chegou a pesar 45 quilos e passou cerca de dois meses recolhido em seu apartamento em Ipanema, no Rio de Janeiro. Segundo reportagem do Purepeople publicada neste domingo, Renato recusou a internação hospitalar e morreu em casa, acompanhado pelo pai e por um enfermeiro.
O sofrimento daquele período aparece nas declarações de sua mãe, Maria do Carmo Manfredini, recuperadas pela publicação. “Ele andava muito deprimido, sem querer comer, nem fazer nada”, relatou. Ao recordar o isolamento do filho, ela afirmou: “Ele desistiu de viver”. As palavras expressam a percepção da mãe sobre seu estado emocional; a causa da morte foi atribuída a complicações da Aids.
Renato deixou o filho Giuliano, então com sete anos. Conforme o relato do Purepeople, o corpo foi cremado no Cemitério do Caju, no Rio, em 12 de outubro, sem velório ou cortejo, respeitando a vontade do artista.
A despedida reservada encerrou uma vida que havia conquistado enorme projeção pública. Renato transformou inquietações pessoais, conflitos familiares e indignação política em canções que ajudaram a definir o rock brasileiro dos anos 1980 e 1990.
Nascido no Rio de Janeiro em 27 de março de 1960, Renato Manfredini Júnior encontrou em Brasília o ambiente em que desenvolveria sua identidade musical. Como registra a Universal Music em sua retrospectiva sobre o cantor, foi na capital federal que ele iniciou a carreira e participou da cena que projetaria o rock brasiliense para o país.
Antes da Legião Urbana, integrou o Aborto Elétrico. Depois da saída do grupo, apresentou-se sozinho com um violão, na fase conhecida como “Trovador Solitário”. Segundo a Associação Brasileira de Música e Artes (Abramus), desse período vieram “Eduardo e Mônica” e “Faroeste Caboclo”, duas das composições mais conhecidas de sua trajetória.
A Legião surgiu em 1982. Com Renato nos vocais, Dado Villa-Lobos na guitarra e Marcelo Bonfá na bateria, o grupo alcançou projeção nacional. O baixista Renato Rocha também integrou a banda em uma etapa importante. O primeiro disco foi lançado no início de 1985, conforme a cronologia da Abramus, e abriu caminho para trabalhos como “Dois”, “Que País É Este” e “As Quatro Estações”.
O repertório reuniu histórias e sentimentos muito diferentes. “Eduardo e Mônica” narra um encontro amoroso entre pessoas de estilos distintos. “Faroeste Caboclo” acompanha uma trajetória atravessada pela desigualdade e pela violência. “Que País É Este” concentra a revolta diante das contradições brasileiras.
Em outras músicas, a força estava na intimidade. “Pais e Filhos”, “Tempo Perdido” e “Vento no Litoral” abordam relações familiares, passagem do tempo, saudade e perda. A voz de Renato combinava firmeza e fragilidade, características que ajudaram a aproximá-lo de ouvintes que reconheciam nas canções seus próprios conflitos.
Pouco antes de sua morte, a Legião lançou “A Tempestade”, um trabalho marcado pela melancolia. A Abramus recorda que Dado e Bonfá anunciaram o fim da banda dez dias depois da perda do vocalista.
Três décadas depois, a obra continua chegando a novos públicos. Em levantamento divulgado em março de 2024, a Universal Music informou que www.universalmusic.com.br o catálogo da Legião havia superado 7,5 bilhões de reproduções de áudio e vídeo nas plataformas digitais.
Renato morreu jovem, mas suas canções envelheceram junto com os admiradores e foram descobertas por quem não chegou a vê-lo no palco. Entre a memória de Brasília, a crítica ao país e as histórias de amor, permanece uma obra capaz de reunir gerações em torno da mesma voz.

