Brasília, 14/10/2026

Crise no STF favorece Flávio e pressiona Lula, avalia The Guardian

A crise no Supremo Tribunal Federal, alimentada pelas suspeitas de relações entre ministros e o banqueiro Daniel Vorcaro, tornou-se um fator central na disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Em reportagem sobre as eleições brasileiras, o The Guardian avalia que o desgaste do tribunal ajudou o senador a ultrapassar o presidente e fortaleceu o discurso antissistema do bolsonarismo.

O jornal britânico apresenta Alexandre de Moraes como personagem decisivo dessa mudança. Antes reconhecido por sua atuação contra a tentativa de golpe e no julgamento de Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão, o ministro passou a ser explorado pela campanha de Flávio como símbolo de uma Justiça desacreditada.

Em um ato em São Paulo, no dia 7 de setembro, o senador associou diretamente o adversário ao magistrado: “Quem vota em Lula está votando em Alexandre de Moraes”. A reportagem ressalta que Lula não foi responsável pela nomeação do ministro ao Supremo.

O ponto de partida do escândalo, segundo o Guardian, foi a revelação de um contrato de aproximadamente 20 milhões de libras entre o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, e Vorcaro. Também surgiram mensagens atribuídas a uma interlocução entre o magistrado e o banqueiro.
Moraes reconheceu a existência do contrato, mas negou irregularidades. Afirmou que não julgou processos envolvendo Vorcaro e rejeitou a identificação de seu nome como destinatário das mensagens investigadas.
A reportagem afirma que outros quatro ministros também tiveram relações com o banqueiro colocadas sob suspeita. Todos negam irregularidades. Para o jornal, o alcance das revelações e os conflitos públicos entre integrantes da Corte ampliaram o desgaste institucional durante a campanha.

Lula procurou se afastar dessa crise depois do primeiro turno. Ao comentar o resultado, atribuiu parte de suas dificuldades ao peso de carregar o que chamou de “promiscuidade” do Supremo. Seu coordenador de campanha, Edinho Silva, também afirmou que o presidente pagou um preço pelo dano à imagem da instituição.

A cientista política Camila Rocha, ouvida pelo Guardian, identifica efeitos especialmente entre os eleitores indecisos. Segundo ela, a percepção de que o Judiciário também estaria contaminado por práticas semelhantes às atribuídas ao Congresso aprofundou a apatia de pessoas que poderiam votar em Lula e reforçou o sentimento antissistema favorável à direita.

O jornal pondera que a vantagem de Flávio não tem uma causa única. O endividamento das famílias e a preferência de parte do eleitorado pelo senador também aparecem entre as explicações. Ainda assim, os analistas entrevistados atribuem à crise judicial um peso relevante numa eleição marcada por dois blocos políticos de força semelhante.

O caso Vorcaro, porém, também alcança o candidato do PL. Segundo a reportagem, Flávio é investigado sobre o destino de cerca de 20 milhões de libras que teria solicitado ao banqueiro para financiar uma cinebiografia de Jair Bolsonaro.

Uma das suspeitas mencionadas é que recursos tenham custeado despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, onde atuou junto ao governo de Donald Trump contra Lula. Flávio afirmou que todo o dinheiro foi destinado ao filme, ainda sem data de estreia.

O Guardian também relata uma publicação da revista Veja segundo a qual Vorcaro teria financiado um documentário de Oliver Stone sobre Lula. A reportagem ressalta, entretanto, que a Polícia Federal e o Ministério Público disseram que o banqueiro não apresentou essa alegação nem provas em seu depoimento. Lula negou ter recebido dinheiro dele.

Na avaliação do jornal, o avanço da direita no Congresso aumenta as consequências políticas da crise. A nova composição do Senado fortalece a pressão por processos de impeachment contra ministros, uma das principais bandeiras dos apoiadores de Jair Bolsonaro.

O professor de direito constitucional da Universidade de São Paulo Conrado Hübner Mendes, entrevistado pelo Guardian, considera que as suspeitas de conflitos de interesse deram ao bolsonarismo novos argumentos para tentar afastar integrantes da Corte.

A reportagem aponta ainda que, se vencer, Flávio poderá indicar substitutos para quatro ministros que se aposentariam durante seu mandato. Nesse cenário, ao menos seis dos 11 integrantes do Supremo poderiam ter sido escolhidos por ele ou por seu pai.

Para Mendes, a combinação entre desgaste institucional, pressão do Senado e novas nomeações ameaça a independência do tribunal. A análise do Guardian coloca, assim, o futuro do Supremo e o equilíbrio entre os Poderes entre as questões centrais do segundo turno, marcado para 25 de outubro.

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