O corte de aproximadamente R$ 200 bilhões nas despesas públicas prometido pelo candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) pode comprometer 2,2 milhões de postos de trabalho e reduzir a renda dos trabalhadores em R$ 68,7 bilhões. As estimativas são de estudo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), divulgado na quinta-feira (22), conforme informou o SBT News.
Elaborado a pedido das centrais sindicais, o levantamento aponta que o chamado “tesouraço” poderia enfraquecer o consumo, reduzir a arrecadação e dificultar o próprio objetivo de estabilizar a dívida pública. O Dieese é uma instituição de pesquisa mantida por entidades sindicais.
As projeções dependem da composição dos cortes. Como a campanha não apresentou o detalhamento das medidas, o instituto construiu uma simulação de ajuste de R$ 194 bilhões, próxima do valor anunciado pelo candidato, com hipóteses sobre a distribuição da redução de despesas.
Nesse exercício, 51% do ajuste recairia sobre transferências de renda, incluindo Previdência, seguro-desemprego, abono salarial e Benefício de Prestação Continuada (BPC). Outros 17% atingiriam despesas com pessoal da União e 32% incidiriam sobre os demais gastos. Essa divisão é uma hipótese do estudo, e não uma relação de cortes oficialmente anunciada por Flávio.
O impacto estimado sobre a atividade econômica seria negativo em R$ 203,1 bilhões, equivalente a 1,55% do Produto Interno Bruto (PIB), na comparação com um cenário sem o ajuste. Isso significa uma redução em relação à trajetória que a economia poderia seguir, sem representar, necessariamente, uma queda absoluta de 1,55% do PIB no ano.
Segundo o UOL, que também analisou o levantamento, o Dieese simulou diferentes possibilidades para 2027. No cenário mais favorável, uma expansão de 2,46%, prevista no projeto do Orçamento, seria reduzida para 0,91% após o ajuste.
Nesse caso, ainda haveria criação de aproximadamente 1,14 milhão de empregos. O resultado, porém, ficaria abaixo das 1,33 milhão de vagas que o instituto considera necessárias para absorver o ingresso de trabalhadores no mercado.
Na simulação mais desfavorável, que parte de uma previsão de crescimento de 1,4%, o ajuste levaria a uma retração de 0,15% do PIB e à perda líquida de cerca de 271 mil vagas. Por isso, os 2,2 milhões de postos comprometidos pelo impacto estimado não devem ser interpretados como igual número de demissões efetivas em todos os cenários.
A taxa de desemprego poderia alcançar uma faixa entre 6,5% e 7%, conforme o levantamento. A combinação de menor atividade e dificuldades para absorver novos trabalhadores ampliaria a pressão sobre o mercado de trabalho.
O efeito também chegaria às contas públicas. De acordo com o SBT News, o Dieese estima uma redução de R$ 46,8 bilhões na arrecadação tributária, que consumiria parte da economia obtida com a diminuição das despesas.
O mecanismo apontado pelo instituto é que menos recursos para famílias, serviços e fornecedores reduzem o consumo e a produção. Com menor movimentação econômica, o governo também recolhe menos impostos, limitando o ganho fiscal do ajuste.
O estudo projeta um superávit primário de aproximadamente 0,7% do PIB no primeiro ano. Esse resultado corresponde à diferença positiva entre receitas e despesas antes do pagamento dos juros da dívida. Na avaliação do Dieese, seria insuficiente para estabilizar o endividamento nas condições simuladas.
A composição do pacote permanece no centro da controvérsia. Em reportagem publicada em 7 de outubro, a Folha de S.Paulo informou que integrantes da equipe econômica de Flávio discutiam mudanças nas regras de correção de benefícios previdenciários e assistenciais e nos pisos de saúde e educação.
Entre as alternativas relatadas pelo jornal estavam limitar determinados reajustes à inflação, mesmo quando o salário mínimo tivesse aumento real, e modificar a atualização das despesas mínimas das áreas sociais. A campanha contestou que essas discussões representassem compromissos oficiais do candidato.
Publicamente, Flávio nega que vá cortar aposentadorias e afirma defender reajustes acima da inflação. O presidenciável apresenta o combate a desperdícios e privilégios como caminho para reduzir despesas.
A falta de detalhamento também foi destacada pelo colunista Graciliano Rocha, do UOL, em reportagem de 17 de outubro. Segundo ele, o plano de governo prevê extinguir pelo menos dez ministérios, reduzir cargos comissionados e promover uma reforma administrativa, mas não informa quanto cada iniciativa economizaria.
A mesma reportagem aponta que mais de 90% das despesas primárias sujeitas ao limite fiscal são obrigatórias. Essa estrutura restringe a margem para um corte de grande dimensão sem alterações nas regras que determinam os gastos.
O debate envolve, portanto, tanto o tamanho do ajuste quanto sua distribuição e seu ritmo. Enquanto Flávio sustenta que a redução de despesas ajudaria a reorganizar as contas públicas, o Dieese conclui que, nas hipóteses examinadas, o pacote poderia enfraquecer o crescimento, o emprego e a renda sem assegurar a estabilização da dívida.


