Brasília, 02/11/2026

Partidos árabes apoiam Eisenkot, que pode pôr fim à era Netanyahu em Israel

247 – As legendas de representação árabe na política israelense decidiram endossar a coalizão liderada pelo militar da reserva Gadi Eisenkot, complicando o caminho de Benjamin Netanyahu para viabilizar um novo gabinete de governo, informa a agência Al Jazeera.

O movimento estratégico da Lista Conjunta e do Ra’am altera a dinâmica pós-eleitoral no parlamento de 120 vagas. Embora o bloco principal da oposição sionista tenha conquistado 48 cadeiras — número insuficiente para atingir a maioria absoluta de 61 assentos —, a adesão dos dois grupos que representam os cidadãos palestinos de Israel oferece uma alternativa para superar a paralisia política e evitar a imediata convocação de um novo pleito.

Historicamente marginalizados na cena pública local, os cidadãos de origem árabe viram a pressão sobre sua representação aumentar drasticamente após o início dos conflitos em Gaza. Desde então, ao menos dois ex-parlamentares e um atual membro do Knesset foram brevemente detidos por declarações e atos de oposição às ofensivas militares e à ocupação na Cisjordânia. Diante desse cenário, analistas apontam que a busca pelo poder exigirá concessões complexas e a quebra de promessas feitas aos respectivos eleitores.

Apesar do desafio de articulação, a chamada aliança “Mudança” reafirma o compromisso de rejeitar qualquer composição com o atual primeiro-ministro. A oposição fundamenta o veto na gestão dos eventos que culminaram nos ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023 e no andamento do processo judicial por corrupção que envolve o chefe de governo. Por outro lado, a aceitação do suporte dos partidos árabes — seja via participação direta ou apoio parlamentar externo — impõe dilemas a Eisenkot junto ao eleitorado conservador, sobretudo em um contexto no qual setores da direita tradicional e o próprio Likud utilizam discursos inflamados contra a minoria árabe para engajar votantes judeus.

O resultado das urnas deixou a coalizão conservadora e de extrema-direita chefiada por Netanyahu com 53 assentos, também aquém do número necessário para governar de forma isolada. Em contrapartida, o bloco liderado pelo partido Yashar, de Eisenkot, somou 48 vagas.

O diferencial do pleito esteve na mobilização da população árabe, que registrou um comparecimento de cerca de 80%, resultando em votação recorde para suas legendas. O Ra’am, comandado por Mansour Abbas, assegurou oito cadeiras, enquanto a Lista Conjunta, liderada por Yousef Jabareen, obteve 11 representações.

A disposição das lideranças árabes em atuar em conjunto com a oposição contrapõe-se a declarações anteriores do próprio Eisenkot, que havia rejeitado coligações com essas bancadas para evitar repercussões negativas entre o público judeu. Historicamente, o Ra’am foi a única legenda da categoria a integrar um gabinete executivo, em 2021, em uma experiência que durou menos de dois anos.

Diante do avanço dos adversários, Netanyahu acusou, sem provas, os partidos árabes de fraudar o processo eleitoral com suposta interferência externa. O Likud explorou publicamente a detenção temporária de três ativistas investigados por suspeita de suborno de eleitores antes da abertura das urnas. O Ra’am nega qualquer envolvimento com o caso.

As acusações do premiê perderam força na esfera jurídica. A Justiça determinou a soltura de um dos suspeitos e colocou outro em regime de prisão domiciliar. Paralelamente, autoridades eleitorais e de segurança garantiram a lisura do pleito. Em transmissão institucional ao lado da procuradora-geral e do chefe do serviço de inteligência Shin Bet, o presidente da Comissão Central Eleitoral, Noam Sohlberg, descartou o cancelamento do resultado.

Conforme relatos da imprensa local, a Lista Conjunta e o Ra’am indicaram que a cooperação com a oposição visa garantir a saída de Netanyahu, sem exigência de participação formal no ministério. Mansour Abbas condicionou a entrada do Ra’am no gabinete à concessão do Ministério da Segurança Nacional, utilizando a indicação de um vice-parlamentar judeu como gesto de diálogo com o bloco opositor.

Por sua vez, Yousef Jabareen reiterou a intenção de colaborar no parlamento para retirar a atual gestão do poder e afastar figuras da extrema-direita, como o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, e o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich.

Com a validação final das urnas marcada para quarta-feira, o presidente Isaac Herzog dará início às consultas individuais transmitidas ao vivo com as 11 bancadas eleitas. O chefe de Estado indicará formalmente o nome de quem terá a prioridade para negociar a coalizão, posto disputado entre Eisenkot e Netanyahu.

O candidato designado disporá de 28 dias para consolidar a maioria, com possibilidade de prorrogação por mais 14 dias. Caso as tratativas falhem, a prerrogativa retorna ao presidente para a escolha de uma alternativa.

Apesar das divisões, permanece a possibilidade teórica de um acordo de unidade nacional entre Netanyahu e a oposição, ou da tentativa de cooptação individual de parlamentares pelo atual governo. O partido Yashar denunciou publicamente que integrantes da legenda vêm recebendo investidas diretas do Likud. De acordo com o calendário institucional, a posse dos novos membros do Knesset ocorrerá em 10 de novembro, independentemente da conclusão das negociações do Executivo.

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