247 – A necessidade de manter a mobilização social que assegurou o resultado das urnas no segundo turno levou a esquerda a organizar a criação de uma “bancada profissional digital” na Câmara dos Deputados, informa Malu Gaspar, no jornal O Globo. A articulação une pelo menos 13 parlamentares do PT, PSOL, PCdoB e PSB.
A nova safra de deputados é composta por Guilherme Cortez (PSOL-SP), Ana Júlia Ribeiro (PT-PR), Ana Elisa (PT-MG), Pedro Rousseff (PT-MG), Giovana Mondardo (PCdoB-SC), Rosa Amorim (PT-PE), Luna Zarattini (PT-SP), Jones Manoel (PSOL-PE) e Rick Azevedo (PSOL-RJ). Eles se somam a nomes reeleitos e já consolidados no meio virtual, como Erika Hilton (PSOL-SP), Dandara Tonantzin (PT-MG), Pedro Campos (PSB-PE), Camila Jara (PT-MS) e André Janones (Rede-MG).
A convocação desse grupo ocorreu após a primeira etapa da disputa presencial, momento em que o presidente Lula (PT) ficou 2,2 milhões de votos atrás de Flávio Bolsonaro (PL). O movimento visava fazer frente à presença digital de expoentes da extrema-direita, a exemplo de Nikolas Ferreira (PL-MG), recordista de votação no país com 3,1 milhões de eleitores, e Lucas Pavanato (PL-SP), que atingiu marca superior a 3 milhões de votos.
Integrantes do grupo pretendem coordenar publicações simultâneas e hashtags padronizadas para dar projeção a projetos prioritários do governo. O empenho dos parlamentares visa também sustentar a estratégia de comunicação direta do governo. Na última quinta-feira (29), após reunião com Janones — gestor do canal “Exército de Lula” —, o presidente confirmou a diretriz: “a gente vai trabalhar para fazer uma comunicação digital muito forte. Eu já não vou mais conversar com vocês via a interpretação da imprensa. Eu vou conversar com vocês através do canal do Janones”.
A articulação pelas redes se contrapõe à realidade numérica das bancadas no Congresso Nacional. A oposição de extrema-direita conta com expressiva representação: apenas o PL possui 121 cadeiras, volume comparável aos 124 parlamentares somados por toda a coligação de esquerda (PT, PCdoB, PV, PDT, PSOL e Rede).
Consciente da desvantagem nas votações regimentais, a deputada Erika Hilton defende a construção de pontes com legendas de centro para isolar o bolsonarismo e aprovar matérias de interesse dos trabalhadores. “Eu acho que é importante a gente trabalhar alguma centralização mínima. Obviamente, há a autonomia de cada mandato, cada figura comunica com o seu público ao seu modo. Sempre tive muito pavor dessa tentativa dos partidos tradicionais em centralizar, mas é fato que vai ser fundamental uma organização no próximo período”, explica Erika.
Por sua vez, Guilherme Cortez avalia que o campo progressista entra na nova legislatura com mais preparo técnico do que em momentos anteriores. “Se por um lado eles (direita) têm uma vantagem numérica e uma correlação de forças favorável no Congresso Nacional, por outro, qualitativamente, a gente está muito mais pronto para enfrentar eles do que a esquerda já esteve em qualquer momento. E agora moralizados e empoderados pelo resultado que tivemos (eleição de Lula). Eles perderam”, ressalta Cortez.
O deputado do PSOL pontua ainda a importância de dialogar com as insatisfações da juventude diante da política tradicional. “Eles direcionam essas frustrações legítimas contra inimigos que não existem. E se a esquerda quiser se tornar relevante, precisa ela própria apresentar respostas melhores e mais convincentes. Não basta estar certo”, pondera.
A deputada eleita Ana Júlia Ribeiro enfatizou que os novos congressistas trazem histórico de militância e capacidade de formulação. “Nós conseguimos, de fato, eleger uma bancada de juventude que conhece bem esse povo (direita) e como eles atuam, mas principalmente uma bancada de muito conteúdo. É uma bancada que vai fazer o enfrentamento. São quadros que tiveram toda uma formação política. De movimentos estudantis e sociais, Câmaras dos Vereadores e Assembleias Legislativas”, reforça.
Sob a perspectiva acadêmica, o combate narrativo nas redes é vital para a sustentação política do Executivo e a sucessão de 2030. De acordo com Arthur Ituassu, professor de Comunicação Política da PUC-Rio, a esquerda precisa consolidar a infraestrutura digital montada no pleito. “Tem que ter uma disputa constante de narrativas. A política, hoje, é assim. Se não disputar as narrativas no meio digital, alguém vai construir a percepção por você. Se você não estiver lá disputando, a oposição vai construir a percepção para você. E uma percepção favorável a ela. Isso envolve muito o nível de aprovação do governo, e não é à toa que houve um sofrimento para a reeleição”, conclui o especialista.


