Luiz Carlos Bordoni
A eleição terminou. Mas, para alguns brasileiros, parece ter começado uma temporada de caça aos adversários políticos. E o que estamos presenciando ultrapassa os limites da divergência democrática para ingressar no terreno perigoso da intolerância, da discriminação e da perseguição.
Em Catalão, minha cidade, há relatos da circulação de listas identificando empresários e estabelecimentos comerciais como “lulistas comunistas” e “traidores da pátria”. Pessoas passam a ser expostas não pelo que fizeram de errado, mas pelo candidato que supostamente teriam apoiado.
A prática lembra um dos capítulos mais tenebrosos da história humana. Na Alemanha nazista, estabelecimentos de judeus eram marcados com a estrela de Davi, como instrumento de identificação, segregação e boicote. Evidentemente, não estamos diante da mesma realidade histórica, mas o princípio de apontar publicamente pessoas para transformá-las em alvos de hostilidade merece um alerta vigoroso.
E não se trata apenas de Catalão. Em Ponta Grossa, no Paraná, circulou uma relação de 60 empresas e profissionais supostamente ligados à esquerda. Em Tanabi, interior paulista, cerca de 40 comerciantes foram expostos em listas semelhantes. Até parlamentares passaram a incentivar a demissão de trabalhadores identificados com o candidato vencedor.
O Ministério Público do Trabalho já está agindo. E precisa agir mesmo! O emprego não pode ser transformado em instrumento de submissão ideológica. O patrão compra a força de trabalho do empregado, não sua consciência, sua dignidade ou seu direito de votar livremente.
Outra manifestação, talvez ainda mais cruel, envolve pessoas anunciando que deixarão de contribuir com entidades assistenciais. Que os pobres que votaram em Lula sejam sustentados pelo Bolsa Família!
É difícil imaginar maior demonstração de insensibilidade. Desde quando a fome escolhe partido? Uma criança necessitada deve pagar pela opção eleitoral dos pais? A caridade virou recompensa para quem pensa como o doador?
O mais desconcertante é que muitas dessas manifestações partem de ambientes onde se exaltam Deus, a família e os valores cristãos. Nos templos, prega-se o amor ao próximo. Nas redes sociais, há quem pratique o contrário: hostilidade, desprezo e exclusão.
Onde foi parar o ensinamento de Cristo?
São Francisco de Assis, na oração tradicionalmente atribuída a ele, oferece uma resposta que deveria constranger os intolerantes: “Onde houver ódio, que eu leve o amor. Onde houver ofensa, que eu leve o perdão. Onde houver discórdia, que eu leve a união.”
E completa: “Pois é dando que se recebe.”
Não se pode falar em fraternidade enquanto se defende a perseguição. Nem proclamar a liberdade enquanto se pretende cassar, pela intimidação, a liberdade alheia.
Há também o perigo da xenofobia, do preconceito regional e da desumanização de grupos inteiros. Quando o adversário deixa de ser visto como cidadão e passa a ser tratado como inimigo, abre-se caminho para agressões morais e até físicas.
É preciso deixar claro: ninguém está obrigado a gostar de Lula, de Bolsonaro ou de qualquer político. A oposição é legítima. A crítica é indispensável. A discordância é saudável. Mas transformar diferenças eleitorais em justificativa para humilhar, ameaçar ou discriminar pessoas é outra coisa.
A democracia assegura o direito de escolher um lado. Não concede a ninguém o direito de perseguir quem escolheu o outro.
O Brasil precisa de paz, respeito e civilidade. Não de listas negras, patrulhas ideológicas e justiceiros digitais, porque a história já nos ensinou, a um custo humano terrível, o que pode acontecer quando a intolerância deixa de ser combatida e quem começa colocando estrelas nas portas dos outros pode terminar apagando a luz da própria democracia.



