Brasília, 29/08/2026

A Globo apertou e eles mostraram o que têm

Luiz Carlos Bordoni

Uma entrevista de candidato à Presidência da República não deveria servir apenas para saber se ele consegue escapar de perguntas difíceis. Deveria servir, principalmente, para que o eleitor descubra se aquele homem tem preparo, equilíbrio, conhecimento e projeto para governar o Brasil.

A rodada de entrevistas da TV Globo com os presidenciáveis cumpriu parte desse papel. Colocou os candidatos diante de Renata Vasconcellos e César Tralli, ao vivo, sem palanque, sem plateia para aplaudir, sem militância para interromper e sem a proteção dos vídeos cuidadosamente editados para as redes sociais. Ali, cada um teve que se defender sozinho e isso faz diferença.

Segundo a avaliação dos colunistas de O Globo, Lula chegou à maior média entre os cinco primeiros entrevistados: 3,0, numa escala de 1 a 5. Renan Santos veio depois, com 2,6; Flávio Bolsonaro, 2,4; Romeu Zema, 2,0; e Ronaldo Caiado, 1,4.

É importante, porém, colocar essas notas no devido lugar. Elas não são pesquisa eleitoral, não medem intenção de voto e muito menos decretam vencedor de eleição. São avaliações de analistas sobre desempenho televisivo, mas dizem alguma coisa.

Lula mostrou aquilo que talvez seja hoje sua maior vantagem sobre os adversários: a experiência. São décadas enfrentando entrevistas, debates, campanhas, crises e confrontos políticos.

Experiência, entretanto, não significa imunidade. O presidente passou boa parte da entrevista defendendo-se de questões incômodas e, em alguns momentos, deixou transparecer irritação. Sua reação diante de Renata Vasconcellos mostrou justamente um dos riscos de quem está há muito tempo no poder: começar a considerar determinadas perguntas mais inconvenientes do que legítimas.

O presidente da República precisa responder até aquilo que não gostaria que lhe perguntassem. Lula saiu melhor avaliado, mas não saiu ileso.

Renan Santos talvez tenha produzido uma das surpresas da rodada. Foi articulado, demonstrou preparo para o enfrentamento verbal e apresentou dados. Ao mesmo tempo, revelou posições que podem assustar uma parcela considerável do eleitorado. Defendeu, por exemplo, que o Brasil desenvolva uma bomba atômica e sustentou que não cumpriria decisões judiciais que considerasse ilegais. Ou seja: mostrou preparo para defender suas ideias, mas algumas dessas ideias passaram a ser o próprio problema.

Flávio Bolsonaro adotou estratégia diferente da retórica normalmente associada ao pai. Procurou demonstrar serenidade, evitou explosões e tentou apresentar-se como uma versão politicamente mais controlada do bolsonarismo. Foi uma estratégia inteligente.

Mas a serenidade na forma não resolve a fragilidade no conteúdo. Quando confrontado com assuntos do próprio passado político e das relações que cercaram sua trajetória, teve dificuldades. Também precisou explicar sua posição sobre as urnas e afirmou que respeitará o resultado eleitoral. Flávio demonstrou que pretende herdar o eleitorado do pai sem necessariamente reproduzir integralmente o seu comportamento. É uma operação política difícil, mas claramente calculada.

Romeu Zema sofreu com outro problema: a passagem do palco estadual para o nacional. Administrar Minas Gerais e disputar a Presidência são dimensões políticas diferentes. O candidato precisa falar de Amazônia, relações exteriores, Previdência, defesa nacional, desigualdades regionais, dívida pública, segurança, saúde e desenvolvimento para 27 unidades da Federação. O governador eficiente precisa transformar-se em estadista. Zema ainda parece procurar essa dimensão.

E chegamos a Ronaldo Caiado. Para nós, goianos, talvez tenha sido a entrevista mais frustrante.

Caiado tem história política, experiência parlamentar, dois mandatos como governador e uma bandeira nacionalmente reconhecida na segurança pública. Era de se esperar que utilizasse a vitrine da Globo para mostrar ao Brasil aquilo que considera ter realizado em Goiás e, sobretudo, explicar como transportaria essa experiência para um país continental.

Não conseguiu. Ficou excessivamente preso ao confronto com Lula e apresentou dificuldades quando provocado a detalhar propostas, especialmente no campo fiscal. O problema é simples: atacar o governo não constitui programa de governo. Quem pretende substituir um presidente precisa dizer não apenas por que o atual está errado, mas o que fará diferente. Nesse aspecto, Caiado desperdiçou uma extraordinária oportunidade.

Mas a rodada revelou também problemas do outro lado da mesa. Renata Vasconcellos e César Tralli são jornalistas experientes. Ainda assim, houve momentos em que a entrevista pareceu abandonar a sabatina para aproximar-se do duelo.

Interromper é necessário quando o candidato foge deliberadamente da pergunta. Confrontar informações falsas também é obrigação jornalística. Insistir numa pergunta não respondida é respeitar o telespectador.

Outra coisa, porém, é transformar o jornalista em personagem principal da entrevista. O entrevistador não precisa derrotar o entrevistado. Precisa fazê-lo responder. Essa diferença é fundamental.

É uma discussão pertinente porque estamos falando de eleição presidencial. O eleitor quer conhecer o passado do candidato, evidentemente. Corrupção, processos, contradições, alianças e declarações anteriores precisam ser cobrados. Mas quer também (ou deveria querer) saber o que aquele cidadão pretende fazer com o Brasil a partir de 1º de janeiro.

Saber: Como equilibrar as contas públicas? O que fará com a Previdência? Como enfrentar o crime organizado? Qual será sua política para educação? Como pretende aumentar a produtividade? Que política externa adotará? Como reduzir a pobreza sem quebrar o Estado? Onde cortar despesas e onde investir? Essas respostas são preciosas.

A rodada da Globo teve um mérito indiscutível: tirou os candidatos da zona de conforto e, quando isso acontece, aparece um pouco mais do homem que existe por trás do candidato.

Lula mostrou experiência, mas também irritação. Renan mostrou desenvoltura, mas revelou posições controversas. Flávio mostrou controle, mas carregou consigo perguntas do passado. Zema mostrou que ainda precisa transformar sua experiência estadual em discurso nacional.

Caiado mostrou que atacar Lula é muito pouco para quem pretende governar o Brasil. E a Globo mostrou que até entrevistadores experientes precisam tomar cuidado para que a firmeza jornalística não transforme uma entrevista eleitoral num campeonato entre quem pergunta e quem responde.

No fim das contas, talvez esteja aí a maior contribuição dessas sabatinas. Presidência da República não é concurso de simpatia, torneio de frases de efeito nem prova de quem consegue vencer dois jornalistas numa bancada. Estamos escolhendo quem comandará um país de mais de 200 milhões de habitantes.

Mais importante do que descobrir quem “ganhou” a entrevista é saber se, entre os entrevistados, apareceu alguém verdadeiramente preparado para ganhar o Brasil.

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