Brasília, 09/06/2026

Artigo – A porteira fechada da Fazenda Europa

Luiz Carlos Bordoni  (*)

A decisão da União Europeia de restringir a importação de carnes e produtos de origem animal do Brasil, com previsão de exclusão a partir de setembro de 2026, acende um sinal de alerta relevante para o agronegócio brasileiro. Trata-se de uma medida que ultrapassa o campo comercial e entra no terreno estratégico, ao envolver padrões sanitários, credibilidade internacional e disputas geopolíticas no comércio de alimentos.

O argumento central apresentado pelos europeus está ancorado na questão sanitária, especialmente no uso de antimicrobianos na produção animal. A UE adota uma política rígida, que proíbe substâncias voltadas ao aumento de produtividade e restringe o uso de antibióticos considerados essenciais para a saúde humana. Nesse ponto, o bloco sustenta que o Brasil não conseguiu assegurar conformidade plena ao longo de toda a cadeia produtiva.

Mais do que uma crítica pontual, a decisão expõe um problema estrutural: a dificuldade de garantir rastreabilidade total dos rebanhos. Em mercados altamente exigentes, não basta produzir em larga escala; é preciso demonstrar, com precisão, a origem, o manejo e os insumos utilizados em cada etapa da produção. É justamente nessa dimensão que o Brasil parece ainda não atender integralmente às exigências europeias.

O discurso europeu, no entanto, não pode ser analisado de forma isolada. Há um componente político evidente, sobretudo no contexto das pressões internas de produtores europeus, que enfrentam custos elevados e forte regulamentação ambiental e sanitária. Ao impor barreiras, a UE também protege seu próprio mercado, reduzindo a competitividade de países exportadores mais eficientes, como o Brasil.

A exclusão brasileira ganha contornos ainda mais sensíveis quando se observa que países como Argentina, Colômbia e México foram mantidos ou incluídos na lista de fornecedores autorizados. Isso sugere que o problema não é apenas regional, mas específico, reforçando a necessidade de o Brasil alinhar seus sistemas de controle às exigências internacionais.

O impacto econômico potencial é significativo. A Europa não é apenas um mercado consumidor relevante, mas também um referencial de qualidade. Estar fora dessa lista compromete não só as exportações diretas, mas também a imagem do produto brasileiro em outros mercados que utilizam os padrões europeus como parâmetro.

Outro ponto crucial é o efeito indireto sobre o acordo Mercosul-União Europeia. A decisão fortalece os argumentos de setores europeus contrários ao tratado, especialmente na França, que historicamente resiste à abertura do mercado agrícola. Nesse sentido, a questão sanitária se mistura com interesses comerciais e políticos.

Do lado brasileiro, a reação tem sido de surpresa e tentativa de reversão. O governo aposta no diálogo técnico e diplomático, na expectativa de comprovar o cumprimento das exigências e reverter a decisão antes da sua implementação definitiva. Há, portanto, uma janela de negociação aberta.

Mas é preciso reconhecer que a solução não será apenas diplomática. O desafio é estrutural e exige investimento em tecnologia, fiscalização e integração de dados ao longo da cadeia produtiva. Rastreabilidade, transparência e controle sanitário deixaram de ser diferenciais e passaram a ser requisitos básicos para competir no mercado global.

A política europeia de combate à resistência bacteriana também merece atenção. Trata-se de uma agenda global, que tende a ganhar força nos próximos anos. Países que não se adequarem a essas diretrizes correm o risco de enfrentar restrições cada vez mais frequentes.

Por outro lado, o Brasil possui vantagens competitivas inegáveis: escala de produção, disponibilidade de terras e tradição no agronegócio. O desafio está em transformar essas vantagens em qualidade certificada, capaz de atender aos mercados mais exigentes.

A situação, portanto, não deve ser vista apenas como um problema, mas como um ponto de inflexão. Pode representar uma oportunidade de modernização e fortalecimento do setor, elevando o padrão da produção nacional.

No fim das contas, a decisão da União Europeia escancara uma realidade cada vez mais evidente: o comércio internacional de alimentos deixou de ser apenas uma disputa de preços e volumes. Hoje, ele é guiado por critérios técnicos, ambientais e sanitários, que definem quem pode ou não participar desse mercado.

Cabe ao Brasil decidir se vai reagir de forma pontual ou estrutural. A diferença entre essas duas respostas pode determinar não apenas o acesso ao mercado europeu, mas o posicionamento do país no cenário global do agronegócio nas próximas décadas.

(*) Luiz Carlos Bordoni é Jornalista

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