Brasília, 01/07/2026

As damas primeiro. Na política, nem sempre

Luiz Carlos Bordoni

Bastou Michelle Bolsonaro anunciar que, “após muito refletir com o meu marido”, decidiu deixar a presidência do PL Mulher para que uma pergunta começasse a circular nos bastidores da política: foi decisão dela ou prevaleceu a vontade dele?

Não há resposta pública para isso. E é justamente aí que mora o ponto principal. A dúvida pode até nascer do contexto familiar e político do bolsonarismo, mas revela também um vício antigo da vida pública brasileira: quando uma mulher avança no território do poder, muita gente ainda procura saber qual homem está por trás dela.

Michelle, goste-se ou não dela, deixou de ser apenas a ex-primeira-dama. Tornou-se liderança política, percorreu o país, falou com o eleitorado feminino e evangélico, comandou o PL Mulher e passou a ser vista como nome competitivo para o Senado pelo Distrito Federal. Não é pouca coisa.

Mas, quando surge uma crise, a primeira leitura de muitos donos da política é reduzir sua decisão à vontade do marido, à briga familiar ou ao comando masculino. Curiosamente, quando um político homem recua, quase ninguém pergunta se foi a esposa que mandou.

Esse é o retrato de uma política ainda profundamente machista. As mulheres podem subir no palanque, puxar votos, organizar militância, dar rosto mais humano a projetos duros e carregar campanhas nas costas. Mas, na hora de reconhecer a autonomia, muitos ainda tratam o protagonismo feminino como concessão.

O caso Michelle expõe também a contradição interna do próprio bolsonarismo. O movimento usou sua imagem, sua popularidade e sua capacidade de comunicação com setores importantes do eleitorado. Agora, diante de uma crise, parece não saber exatamente como lidar com uma mulher que ganhou tamanho próprio.

A saída da presidência do PL Mulher pode ser uma decisão pessoal, familiar, política ou tudo isso junto. O que não se pode ignorar é o símbolo. Uma liderança feminina deixa o comando de uma estrutura partidária relevante e, imediatamente, o debate passa a ser menos sobre sua trajetória e mais sobre quem teria autorizado sua permanência ou sua saída.

Na política brasileira, ainda se diz “as damas primeiro” apenas na etiqueta. No poder real, muitas vezes elas continuam sendo chamadas depois e, não raramente, sob desconfiança.

Michelle Bolsonaro talvez ainda dispute o Senado. Talvez recue. Talvez volte ao centro do palco em outro momento. Mas o episódio já deixou uma lição: enquanto a autonomia das mulheres na política for tratada como mistério a ser decifrado pelos homens, o país continuará moderno no discurso e atrasado na prática.

Tags

Gostou? Compartilhe!