Luiz Carlos Bordoni Durante esta Copa do Mundo, muita gente ficou com a impressão de que a CazéTV havia se tornado a maior força das transmissões esportivas no Brasil. Bastava abrir as redes sociais. Clipes, memes, cortes, comentários e debates apareciam o tempo inteiro. Parecia que o futebol havia mudado definitivamente de endereço.
Os números mostram uma realidade mais complexa. As transmissões da Globo, somando TV aberta, SporTV e plataformas digitais, alcançaram mais de 116 milhões de brasileiros nas primeiras fases da Copa. Em outras palavras, mais de 84% de quem assistiu ao Mundial passou, em algum momento, pelas telas da Globo. O SBT ficou com cerca de 7% da audiência e a CazéTV respondeu por aproximadamente 8%.
Isso significa que a Globo continua hegemônica? Sim. Mas de uma forma diferente daquela que conhecíamos. Ela deixou de disputar quantidade de jogos para disputar qualidade de audiência. Enquanto a CazéTV transmite praticamente toda a Copa, a emissora carioca seleciona os confrontos de maior interesse popular: abertura, jogos do Brasil, grandes clássicos e todas as fases decisivas. Com menos partidas, consegue concentrar um enorme volume de espectadores.
Há outro detalhe importante. A CazéTV fala de Copa durante vinte e quatro horas por dia. Está nas redes sociais, nos cortes, nos podcasts, nos memes, nas entrevistas e nas transmissões. É natural que produza uma enorme sensação de presença.
A Globo faz outra aposta. Continua utilizando a força da televisão aberta, ainda presente em praticamente todo o território nacional, enquanto amplia sua atuação digital por meio do Globoplay, da Ge TV e de outras plataformas. Em vez de abandonar a televisão tradicional, decidiu integrá-la ao streaming.
O resultado é curioso. A CazéTV domina a conversa. A Globo domina o alcance.
Isso ajuda a explicar por que tantas pessoas acreditam que a emissora perdeu a liderança. O ambiente digital cria uma percepção ampliada da sua influência. Quem passa o dia nas redes sociais imagina que elas representam todo o país. Não representam.
Existe um Brasil conectado por fibra óptica e smartphones. Existe outro que continua acompanhando a Seleção pela televisão da sala. Os dois convivem. A Globo fala com ambos.
Isso não diminui o mérito da CazéTV. Ao contrário. Ela talvez seja a principal responsável pela transformação da linguagem das transmissões esportivas no Brasil. Aproximou narradores do público, rompeu formalidades, conquistou os jovens e demonstrou que o streaming deixou de ser promessa para se tornar realidade. Hoje, já está presente em mais de 32 milhões de lares brasileiros.
O mercado mudou. Mas mudar não significa substituir imediatamente. A televisão aberta continua sendo um gigante. O streaming deixou de ser coadjuvante e passou a ocupar o lugar de protagonista. A tendência não é que um elimine o outro, mas que todos convivam por muitos anos, disputando públicos diferentes.
No fim das contas, a Copa ensina uma lição também para quem analisa comunicação. Nas redes sociais, quem faz mais barulho parece maior. Na audiência, porém, quem fala com mais gente continua sendo maior. Em comunicação, o alcance ainda pesa mais do que eco.


