247 – A campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) atravessa um período de turbulência interna após o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, a equipe do presidente acumula três dias de discussões, críticas à coordenação e tentativas de reorganização da estratégia para enfrentar o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no segundo turno, marcado para 25 de outubro.
Lula recebeu 45,16% dos votos válidos no primeiro turno, realizado no domingo (4), enquanto Flávio Bolsonaro alcançou 47,03%. O resultado contrariou as expectativas de parte dos aliados do presidente, que trabalhavam com a possibilidade de uma vitória ainda na primeira etapa da disputa. Desde então, integrantes do PT e de partidos aliados discutem mudanças na estrutura da campanha, reforços políticos e novas estratégias de comunicação.
Lula critica organização e expõe insatisfação com a campanha
Na quarta-feira (7), Lula manifestou publicamente sua insatisfação com a organização da campanha, coordenada pelo presidente nacional do PT, Edinho Silva.
“Eu acho que nós fizemos uma campanha aquém da minha possibilidade. Acho que a gente poderia ter feito mais. Eu disse para o Edinho que essa foi a campanha menos organizada que eu participei desde 1989. E normalmente a gente colhe aquilo que a gente planta”, afirmou o presidente.
A declaração aprofundou o debate interno sobre a condução da campanha. Edinho já vinha enfrentando questionamentos de integrantes do PT, especialmente em relação à distribuição de materiais eleitorais aos estados e à articulação entre as diferentes instâncias partidárias.
Na terça-feira (6), o coordenador foi alvo de críticas durante uma reunião de correligionários em Brasília. Segundo a Folha, aliados ouvidos sob condição de anonimato avaliaram que Lula poderia ter tratado das dificuldades reservadamente, evitando expor publicamente o responsável pela coordenação.
Apesar das críticas, a saída de Edinho é considerada improvável. A alternativa em discussão seria redistribuir responsabilidades e ampliar o núcleo político responsável pelas decisões da campanha.
Camilo Santana, Rui Costa e Alckmin podem ganhar protagonismo
Uma das principais mudanças discutidas envolve o fortalecimento da participação de lideranças políticas com experiência eleitoral e capacidade de mobilização regional.
O ex-governador do Ceará Camilo Santana (PT) aparece entre os nomes cotados para assumir novas responsabilidades. Também há expectativa de maior participação de dirigentes e lideranças petistas do Nordeste.
O senador Otto Alencar (PSD-BA), que conversou com Lula sobre a organização do segundo turno, defendeu a mobilização de quadros políticos nos estados.
“Colocamos lá Camilo, Rui Costa e Jerônimo Rodrigues no Nordeste. Lá em São Paulo o [Fernando] Haddad e o [Geraldo] Alckmin. E as lideranças nos estados”, afirmou à Folha.
A avaliação entre integrantes da campanha é que a participação mais ativa dessas lideranças poderá contribuir para ampliar a presença territorial da candidatura e melhorar a articulação política nesta etapa da eleição.
Também há relatos de problemas de coordenação entre estruturas partidárias. Deputados federais de São Paulo, por exemplo, teriam sido convocados para compromissos simultâneos em Brasília e na capital paulista, evidenciando dificuldades de comunicação interna.
Comunicação digital passa por reformulação
A estratégia de comunicação também está sendo revista. A campanha pretende ampliar a produção de vídeos curtos, gravados diretamente pelo presidente, para circulação nas redes sociais.
O formato, semelhante a vídeos de selfie, permite produzir conteúdos com maior rapidez e menor dependência de estruturas profissionais de gravação.
O governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), é apontado como um dos defensores dessa abordagem.
Em uma das gravações, Lula convocou seus apoiadores a participar da mobilização eleitoral.
“Bora para a rua! Vamos ganhar essas eleições para não permitir que o retrocesso volte para esse país”, declarou.
Na quarta-feira, o presidente também reuniu deputados eleitos com forte presença nas plataformas digitais. Entre os participantes estava Ana Elisa, de 21 anos, eleita deputada federal pelo PT de Minas Gerais com 524 mil votos, que deverá colaborar com a comunicação da campanha.
Outro nome mencionado para reforçar a equipe é Bruno Monteiro, secretário de Cultura licenciado da Bahia, que participou da campanha de Jerônimo Rodrigues ao governo estadual.
Segundo a reportagem, Monteiro mantém boa interlocução com o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, e com a primeira-dama Janja Lula da Silva. A atuação de Janja também tem sido objeto de questionamentos internos.
Segurança pública ganha destaque no discurso
Outra mudança envolve o posicionamento de Lula sobre segurança pública, tema que ganhou relevância na disputa eleitoral.
O presidente passou a utilizar uma formulação mais enfática para apresentar sua posição sobre o combate à criminalidade.
“Para o povo trabalhador, a proteção. Para o bandido, a prisão. É esse o nosso lema daqui para frente”, afirmou.
A campanha também discute como abordar a reforma do Judiciário, diante das críticas à atuação do Supremo Tribunal Federal e das repercussões do caso Banco Master.
Há divergências entre aliados sobre a conveniência de destacar o tema, considerado por alguns integrantes da equipe uma bandeira que também vem sendo explorada pelo bolsonarismo.
Presidente tenta evitar desmobilização após o primeiro turno
Apesar das dificuldades internas, Lula tem procurado transmitir disposição para intensificar a campanha e manter seus aliados mobilizados.
Segundo a Folha, o presidente tem cobrado maior empenho das lideranças partidárias e buscado reforçar a presença de sua candidatura nas ruas e nas plataformas digitais.
A proteção dos programas sociais também aparece entre os temas discutidos para o segundo turno. Integrantes da campanha avaliam explorar possíveis diferenças entre as propostas dos candidatos para políticas de transferência de renda e outros benefícios públicos.
O desafio imediato da coordenação será superar as divergências internas, organizar a atuação dos aliados nos estados e estabelecer uma estratégia de comunicação mais integrada.
Com a votação marcada para 25 de outubro, a campanha de Lula terá pouco mais de duas semanas para implementar as mudanças em discussão e disputar os votos necessários para reverter a diferença registrada no primeiro turno.
