Brasília, 06/09/2026

 Cassiterita ilegal da Amazônia abasteceu cadeia global de tecnologia

A cassiterita extraída ilegalmente da Terra Indígena Yanomami e do Parque Nacional dos Campos Amazônicos teria sido refinada no Brasil e incorporada à cadeia de fornecimento de multinacionais. A revelação faz parte da série “Ouro Invisível”, de O Globo, baseada em documentos da Operação Forja de Hefesto, da Polícia Federal, e em investigações do Ministério Público Federal (MPF).

Conhecida como o “ouro negro” do extrativismo, a cassiterita é a matéria-prima do estanho, metal utilizado em soldas de celulares, computadores, microchips e equipamentos de inteligência artificial, além de tecnologias ligadas à transição energética.

No centro da investigação está a White Solder, empresa com sede em Ribeirão Preto, filial em Manaus e unidade industrial em Ariquemes, Rondônia. A companhia tornou-se ré na Justiça Federal de Roraima, acusada de liderar um esquema de receptação, refino e regularização fraudulenta de minério ilegal que teria movimentado pelo menos R$ 200 milhões entre 2020 e 2025.

Segundo O Globo, a cassiterita retirada clandestinamente de áreas protegidas era levada para Rondônia e misturada a minério produzido legalmente no estado. Notas fiscais e guias falsas davam ao produto um “passaporte limpo” antes de sua chegada à refinaria.

A Cooperativa de Produtores de Estanho do Brasil, a Coopertin, teria sido utilizada para simular que o minério vinha de lavras autorizadas. Embora mantivesse em Boa Vista uma sede sem funcionários ou atividade operacional, a entidade movimentou R$ 166,3 milhões provenientes da White Solder em apenas cinco meses. A fundidora respondeu por 97,6% dos créditos recebidos pela cooperativa no período.

Depois de beneficiada em Ariquemes, a cassiterita era transformada em lingotes de estanho de alta pureza. A fundição eliminava as características físicas que poderiam revelar a procedência do minério. Com documentação aparentemente regular e certificações internacionais, o metal entrava no mercado externo.

O cruzamento de auditorias com registros apresentados à Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos identificou a White Solder como fornecedora declarada de empresas como Apple, Microsoft, Amazon, Sony, Walt Disney, Starbucks, Caterpillar, PepsiCo, Colgate-Palmolive, Victoria’s Secret e Levi’s.

A presença das multinacionais nesses registros não significa que elas soubessem da origem ilegal do minério. O caso, entretanto, expôs fragilidades nos sistemas de auditoria e rastreamento. Dez empresas com atuação no Brasil foram notificadas numa investigação cível por possíveis falhas nos controles socioambientais e de direitos humanos.

O MPF pede uma indenização de R$ 1,7 bilhão de toda a cadeia envolvida na extração, transporte, industrialização e comercialização de cassiterita e ouro ilegais. Os procuradores sustentam que as empresas deverão demonstrar que adotaram medidas eficazes para verificar a origem do estanho adquirido.

Perícias realizadas nos rejeitos da cassiterita também encontraram minerais estratégicos, como monazita, ilmenita e columbita, dos quais podem ser extraídos terras raras, nióbio e tântalo. Esses materiais são empregados em componentes eletrônicos, supercondutores, equipamentos aeroespaciais e tecnologias de energia limpa.

Segundo os investigadores, os garimpeiros já começaram a reprocessar esses rejeitos para recuperar substâncias de alto valor. A descoberta mostra que a cassiterita passou a rivalizar com o ouro em importância para o garimpo ilegal na Amazônia.

O presidente da Associação Hutukara Yanomami, Dario Kopenawa, afirmou que as operações de retirada de invasores reduziram o garimpo, mas não eliminaram o problema. A crescente procura por cassiterita estaria incentivando novas invasões do território indígena.

A Agência Nacional de Mineração admitiu que o Brasil não possui um sistema capaz de rastrear a cassiterita desde a extração até a transformação industrial. O MPF recomendou a criação urgente desse controle, mas afirma não ter recebido uma resposta conclusiva do governo federal.

A Amazon declarou não manter relação comercial direta com a White Solder e prometeu reforçar as verificações entre seus fornecedores. A Walt Disney Company Brasil informou não ter sido citada no inquérito. As outras multinacionais procuradas não responderam. A White Solder não se manifestou, e as defesas dos acusados negaram participação no esquema.

 

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