247 – O comércio entre Brasil e China avançou de forma expressiva no primeiro semestre, ampliando ainda mais a importância do país asiático para a economia brasileira. Entre janeiro e junho, a corrente comercial bilateral cresceu 28,2% e alcançou US$ 106,7 bilhões, impulsionada tanto pelo aumento das exportações brasileiras quanto pela expansão das importações de produtos chineses.
Os dados foram destacados pela jornalista Assis Moreira, em sua coluna no jornal Valor Econômico. O desempenho contrasta diretamente com a evolução das trocas entre Brasil e Estados Unidos, que recuaram no mesmo período, em meio ao agravamento das tensões políticas e comerciais promovidas pelo governo do presidente norte-americano, Donald Trump.
China amplia peso no comércio brasileiro
A relação comercial com a China gerou para o Brasil um superávit de US$ 22,9 bilhões no primeiro semestre, confirmando o papel central do mercado chinês na geração de divisas para a economia brasileira.
O resultado evidencia não apenas o volume das vendas brasileiras ao país asiático, mas também a complementaridade entre as duas economias. A China continua sendo uma grande compradora de produtos brasileiros, ao mesmo tempo em que fornece máquinas, equipamentos, componentes eletrônicos e bens industriais essenciais para diferentes setores produtivos.
A expansão de 28,2% reforça uma tendência observada ao longo dos últimos anos: a China consolida-se como o principal parceiro comercial do Brasil e amplia sua relevância em áreas estratégicas, como infraestrutura, energia, tecnologia, agricultura e indústria.
Comércio com os EUA encolhe
No sentido oposto, a corrente comercial entre Brasil e Estados Unidos caiu 12,8% no primeiro semestre, para US$ 36,4 bilhões.
As exportações brasileiras ao mercado norte-americano recuaram 12,5%, enquanto as vendas dos Estados Unidos ao Brasil diminuíram 13%. O resultado foi um déficit comercial de aproximadamente US$ 1,5 bilhão para o Brasil.
A diferença em relação à parceria com a China é significativa. Enquanto o comércio sino-brasileiro cresce e gera elevado superávit, as trocas com os Estados Unidos diminuem e produzem resultado negativo para o lado brasileiro.
Governo Lula vê impasse político com Washington
Fontes oficiais citadas na coluna avaliam que a deterioração das relações com Washington não decorre de um desequilíbrio comercial relevante, mas de uma disputa essencialmente política e geopolítica.
Na avaliação do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a administração Trump vem adotando uma postura restritiva em relação ao Brasil, dentro de uma estratégia mais ampla de preservação da hegemonia norte-americana no continente.
Esse diagnóstico é reforçado pela imposição de novas sobretaxas de 25% sobre produtos brasileiros. As medidas substituem parcialmente tarifas anteriores e ampliam as incertezas para setores exportadores, embora seu efeito sobre o comércio mundial ainda seja considerado relativamente limitado.
Exportações chinesas avançam em setores tecnológicos
A expansão do comércio bilateral também reflete o desempenho recente das exportações chinesas. Somente em junho, as vendas externas da China cresceram 27%, sustentadas principalmente por produtos ligados à nova economia tecnológica.
Entre os principais destaques estão semicondutores, equipamentos eletrônicos e veículos elétricos. Em determinadas categorias, o avanço das exportações chegou a 122%, demonstrando a crescente competitividade da indústria chinesa em segmentos de alto valor agregado.
O aumento dos preços de componentes tecnológicos também contribuiu para elevar o valor das exportações, em um momento de forte demanda global por infraestrutura digital e capacidade computacional.
Inteligência artificial impulsiona comércio mundial
Segundo a análise, o ciclo de investimentos em inteligência artificial tornou-se um dos principais motores do comércio global. A construção de centros de processamento de dados, a produção de semicondutores e a expansão da infraestrutura tecnológica vêm mantendo aquecida a demanda internacional.
Esse movimento ajuda a compensar parcialmente os impactos negativos provocados por conflitos geopolíticos e por medidas protecionistas adotadas por diferentes países.
A Organização Mundial do Comércio estima que o comércio mundial poderá crescer cerca de 3% em 2026, impulsionado sobretudo pelos investimentos associados à inteligência artificial e à transformação digital.
Petróleo e fertilizantes geram riscos
O cenário global, no entanto, permanece marcado por importantes incertezas. O conflito no Golfo Pérsico provocou aumento dos preços do petróleo e de outros produtos energéticos, elevando custos para empresas e consumidores.
A alta dos preços dos hidrocarbonetos afeta diretamente o transporte, a indústria e as cadeias internacionais de produção. Países dependentes de importações de energia tendem a enfrentar pressões inflacionárias e maior dificuldade para sustentar o ritmo de crescimento.
Os fertilizantes representam outro ponto de atenção. A elevação dos preços e eventuais dificuldades de fornecimento podem afetar diretamente as safras de grandes produtores agrícolas que dependem das importações, como Brasil e Índia.
Relação com a China ganha dimensão estratégica
Os números do primeiro semestre reforçam a mudança estrutural na geografia do comércio exterior brasileiro. Enquanto a relação econômica com os Estados Unidos perde dinamismo e se torna cada vez mais condicionada por disputas políticas, a parceria com a China continua se expandindo.
Para o Brasil, o desafio será transformar o crescimento comercial em uma relação ainda mais diversificada, com maior participação de produtos industrializados, tecnologia, investimentos produtivos e projetos conjuntos.
A diferença entre os resultados obtidos com China e Estados Unidos também ajuda a explicar a prioridade conferida pelo governo Lula à integração com o Sul Global, ao Brics e a uma política externa baseada na diversificação de parceiros.
Em um cenário internacional de crescente fragmentação, a expansão das trocas entre Brasil e China demonstra que o dinamismo do comércio mundial se desloca progressivamente para a Ásia e para as economias emergentes.

