Durante décadas, Daniel Ortega foi tratado como um dos maiores símbolos da esquerda latino-americana. Líder da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN), ajudou a derrubar, em 1979, a ditadura de Anastasio Somoza, encerrando uma dinastia familiar que governava a Nicarágua havia mais de quatro décadas.
Quase meio século depois, porém, Ortega passou a ocupar o lado oposto da história. Aos 80 anos, o antigo guerrilheiro enfrenta acusações de comandar um regime autoritário, prender opositores, fechar veículos de imprensa, perseguir religiosos, cassar organizações civis e concentrar praticamente todo o poder do Estado ao lado da esposa, Rosario Murillo.
A decisão mais recente de suspender as eleições competitivas e consolidar um sistema político sem oposição organizada aprofundou as críticas internacionais e levou organismos de direitos humanos a afirmar que a Nicarágua deixou de funcionar como uma democracia.
O revolucionário
Nascido em 1945, Ortega entrou ainda jovem para a Frente Sandinista, organização inspirada na Revolução Cubana e batizada em homenagem ao guerrilheiro Augusto César Sandino.
Durante a década de 1960 foi preso pelo regime Somoza, permanecendo vários anos na cadeia até ser libertado em uma troca de prisioneiros.
Em 1979, após anos de guerrilha e guerra civil, os sandinistas tomaram Manágua. Somoza fugiu do país, encerrando uma das mais longas ditaduras da América Latina.
Naquele momento, Ortega era visto como um dos rostos da esperança democrática e da justiça social na região.
Guerra Fria e Cuba
O novo governo aproximou-se rapidamente de Cuba e da União Soviética. Os Estados Unidos responderam financiando os chamados “Contras”, grupos armados que combateram o governo sandinista durante toda a década de 1980.
A guerra devastou a economia nicaraguense e deixou dezenas de milhares de mortos.
A derrota nas urnas
Em 1990, Ortega aceitou disputar eleições livres e foi derrotado por Violeta Chamorro. Na época, sua decisão de reconhecer a derrota foi considerada um gesto democrático raro em uma região marcada por golpes militares.
Durante mais de quinze anos permaneceu na oposição.
O retorno ao poder
Em 2006, Ortega voltou à Presidência por meio das urnas. Nos primeiros anos, manteve crescimento econômico, ampliou programas sociais e preservou boas relações com parte do empresariado. Mas, paralelamente, iniciou um processo gradual de concentração de poder.
Reformas constitucionais permitiram sucessivas reeleições, enquanto o Judiciário e o Conselho Supremo Eleitoral passaram a ser dominados por aliados do governo.
A ruptura
O ponto de inflexão ocorreu em 2018. Uma onda de manifestações contra mudanças na Previdência transformou-se em protestos nacionais.
A resposta do governo foi extremamente dura. Centenas de pessoas morreram, milhares foram presas ou deixaram o país, segundo organizações internacionais de direitos humanos. Desde então, jornalistas independentes, universidades, entidades religiosas e organizações não governamentais passaram a sofrer sucessivas restrições.
A ascensão de Rosario Murillo
Ao mesmo tempo, Rosario Murillo deixou de exercer apenas o papel de primeira-dama. Nomeada vice-presidente, tornou-se a principal figura política do governo ao lado do marido. Hoje, analistas descrevem a Nicarágua como um sistema de poder concentrado no casal presidencial.
O fim da oposição
Nos últimos anos, praticamente todos os principais candidatos oposicionistas foram presos, impedidos de disputar eleições ou obrigados ao exílio.
Partidos perderam o registro.
Veículos de comunicação foram fechados.
Bispos da Igreja Católica sofreram perseguições.
Diversos críticos perderam até mesmo a nacionalidade nicaraguense.
As eleições passaram a ser questionadas por observadores internacionais pela ausência de concorrência efetiva.
Isolamento internacional
Estados Unidos, União Europeia e diversos países latino-americanos impuseram sanções contra integrantes do governo. A Organização das Nações Unidas e a Comissão Interamericana de Direitos Humanos divulgaram sucessivos relatórios denunciando violações de direitos humanos.
O governo Ortega rejeita todas as acusações e afirma ser vítima de uma campanha internacional para desestabilizar o país.
A ironia da história
Poucos líderes latino-americanos representam uma transformação política tão marcante quanto Daniel Ortega.O homem que ganhou projeção mundial combatendo uma ditadura tornou-se, para seus críticos, o responsável por desmontar as instituições democráticas que prometera construir.
A trajetória do antigo comandante sandinista ilustra uma das maiores ironias políticas da América Latina: a revolução que prometia devolver o poder ao povo acabou sendo acusada de concentrá-lo nas mãos de um único grupo político.
Boxe cronológico
- 1945 – Nasce Daniel Ortega.
- 1967 – É preso pela ditadura Somoza.
- 1979 – Revolução Sandinista derruba Anastasio Somoza.
- 1985 – Assume oficialmente a Presidência da Nicarágua.
- 1990 – Perde as eleições para Violeta Chamorro.
- 2006 – Retorna ao poder pelo voto.
- 2014 – Reforma constitucional amplia a possibilidade de reeleições.
- 2018 – Protestos são reprimidos com violência, marcando uma mudança no regime.
- 2021 – Principais adversários são presos antes das eleições presidenciais.
- 2023–2026 – Intensificam-se a repressão à oposição, o fechamento de organizações civis e as críticas internacionais ao governo.
- 2026 – A consolidação de um sistema sem disputa eleitoral efetiva reforça as acusações de que a Nicarágua vive sob um regime autoritário.

