Brasília, 21/09/2026

Economia perde força e derruba aprovação de Trump

A economia que ajudou Donald Trump a chegar duas vezes à Presidência dos Estados Unidos tornou-se sua principal ameaça política e pode custar aos republicanos o controle do Congresso. Apenas 32% dos americanos aprovam o governo, o menor índice da trajetória política de Trump nas pesquisas Reuters/Ipsos. Na economia, o apoio despencou para 17%.

Os números mostram que o presidente enfrenta seu período mais difícil desde que retornou à Casa Branca, em janeiro de 2025. Pressionado pela inflação, pela disparada dos combustíveis, pelo custo de vida e pelos efeitos da guerra contra o Irã, Trump também ampliou o confronto com importantes veículos da imprensa americana.

A marca de 32% é a menor registrada pelo republicano na série histórica da Reuters/Ipsos, que acompanha sua popularidade desde o primeiro mandato, iniciado em 2017. O dado não representa a menor aprovação já alcançada por um presidente americano, mas o pior resultado da carreira política de Trump.

O principal problema está na economia. Durante anos, Trump apresentou a geração de empregos, o crescimento e a redução de impostos como suas maiores credenciais. Agora, a área que sustentava boa parte de sua força eleitoral aparece como a maior vulnerabilidade do governo.

Somente 17% dos americanos aprovam a maneira como o presidente conduz a economia. A insatisfação alcança democratas, independentes e parte do eleitorado republicano.

Para um presidente que construiu sua imagem política em torno da experiência empresarial e da capacidade de gerar prosperidade, o resultado representa um desgaste especialmente grave.

A alta dos preços atingiu diretamente o orçamento das famílias. Combustíveis, alimentos, energia, transportes e outros produtos ficaram mais caros, aumentando a percepção de que o governo não conseguiu proteger o poder de compra da população.

A guerra contra o Irã agravou o quadro. A elevação do preço do petróleo pressionou os combustíveis e os custos de transporte, espalhando seus efeitos por diferentes setores da economia. Ao mesmo tempo, uma parcela crescente dos americanos questiona a duração do conflito e seus resultados.

Outras pesquisas divulgadas pela imprensa dos Estados Unidos mostram percentuais diferentes, mas confirmam a mesma tendência. Levantamento da NBC News colocou a aprovação de Trump em 41%, o menor patamar de seu segundo mandato na série da emissora.

A pesquisa da NBC mostrou ainda que 55% dos eleitores acreditam que as políticas de Trump prejudicaram a economia. Em março, essa avaliação era compartilhada por 48%. A piora indica que mais americanos passaram a relacionar as decisões da Casa Branca às dificuldades encontradas no cotidiano.

A Universidade Marquette encontrou aprovação de 37%. O levantamento identificou perda de apoio entre independentes, eleitores mais velhos e até americanos que se definem como muito conservadores.

As diferenças entre os resultados são explicadas pelos períodos de coleta, pelas metodologias e pelo perfil dos entrevistados. O conjunto das pesquisas, entretanto, aponta na mesma direção: Trump perdeu popularidade e a economia domina as preocupações dos eleitores.

Na rodada anterior da Reuters/Ipsos, divulgada em 14 de setembro, Trump tinha 35% de aprovação, depois de alcançar 33%, até então seu menor índice. A nova queda para 32% mostra que a pequena recuperação não se sustentou.

O desgaste já atinge o Partido Republicano. A pesquisa anterior mostrou que 44% dos americanos pretendiam votar em candidatos democratas ao Congresso, contra 37% que preferiam os republicanos. Foi a maior vantagem da oposição desde a volta de Trump ao poder.

Outro sinal de mudança apareceu na avaliação sobre qual partido está mais preparado para administrar a economia. Pela primeira vez em cerca de uma década, os democratas passaram à frente dos republicanos nesse quesito, segundo a Reuters.

A Casa Branca tenta reagir. Trump prometeu pagar US$ 5 mil a cada adulto americano caso os republicanos mantenham o controle do Congresso. A proposta, porém, foi rejeitada por 63% dos entrevistados na rodada anterior da Reuters/Ipsos, incluindo 40% dos republicanos.

O presidente também procura responsabilizar Joe Biden pelas dificuldades econômicas. Levantamento da Reuters mostrou que Trump citou o antecessor quase 900 vezes em discursos, entrevistas e publicações nas redes sociais durante a campanha de 2026.

A estratégia busca transferir ao antigo governo a responsabilidade pela inflação, pelas contas públicas e pelos problemas internacionais. Depois de quase dois anos do novo mandato, no entanto, cresce a parcela da população que atribui ao próprio Trump a responsabilidade pela situação econômica.

Em meio à queda de popularidade, Trump abriu outra frente de batalha. O presidente intensificou os ataques à imprensa e proibiu jornalistas da CNN, do Politico e da MS Now de trabalhar nas dependências da Casa Branca.

Trump acusa esses veículos de divulgar notícias falsas e de representar uma ameaça à segurança nacional, mas não apresentou provas. As organizações afirmam que foram punidas por manter uma cobertura crítica do governo.

CNN, Politico e MS Now recorreram à Justiça contra a decisão. Os veículos alegam que a retirada das credenciais viola a Primeira Emenda da Constituição americana, que protege as liberdades de expressão e de imprensa.

A reação ultrapassou o grupo diretamente atingido. Grandes redes de televisão, entre elas ABC, CBS, NBC e Fox News, suspenderam a participação na cobertura conjunta da Casa Branca em solidariedade à CNN.

Normalmente, as emissoras se revezam na cobertura de viagens e eventos presidenciais, compartilhando imagens e informações. A suspensão desse sistema mostrou que o confronto deixou de envolver apenas veículos tradicionalmente criticados por Trump e alcançou uma parcela mais ampla da imprensa americana.

A ofensiva contra os meios de comunicação também tem função política. Ao transformar jornalistas e empresas de comunicação em adversários, Trump procura mobilizar seu eleitorado mais fiel e atribuir a queda nas pesquisas a uma cobertura que considera hostil.

O problema para a Casa Branca é que o desgaste não aparece apenas no noticiário. Ele está presente no orçamento das famílias, na avaliação sobre o custo de vida e nas pesquisas realizadas por diferentes institutos.

Trump ainda conserva apoio expressivo entre os eleitores republicanos e continua mais bem avaliado em temas como imigração e controle das fronteiras. Essa base fiel mantém sua capacidade de mobilização e impede, por enquanto, uma ruptura dentro do partido.

A maior dificuldade está entre independentes, moderados e eleitores preocupados com a situação econômica. Esses segmentos costumam decidir as disputas mais equilibradas pela Câmara dos Representantes e pelo Senado.

A baixa popularidade de um presidente não determina automaticamente o resultado das eleições legislativas. As disputas são realizadas estado por estado e distrito por distrito. Ainda assim, um governo rejeitado pode afastar eleitores, prejudicar candidatos republicanos e transformar a votação em um julgamento sobre a Casa Branca.

A questão agora é saber se Trump conseguirá recuperar parte desse eleitorado antes das eleições de novembro. Caso o desgaste continue, poderá entrar nos dois últimos anos do mandato diante de um Congresso controlado pelos democratas e com menor capacidade para aprovar sua agenda.

Economia sob pressão

A economia americana ainda apresenta crescimento do emprego, mas inflação, juros elevados e combustíveis mais caros corroem o poder de compra das famílias e explicam boa parte da queda de popularidade de Trump.

  • Inflação: o índice de preços de consumo pessoal acumulou alta de 3,7% em 12 meses até julho, distante da meta de 2% perseguida pelo Federal Reserve.
  • Preços no atacado: os preços pagos aos produtores subiram 5,4% em 12 meses até agosto. Parte desse aumento tende a ser repassada posteriormente aos consumidores.
  • Gasolina: o preço médio passou de US$ 4,06 por galão em julho para US$ 4,19 em agosto. Em setembro, já se aproximava de US$ 4,40, segundo dados citados pela Reuters.
  • Diesel: o combustível ultrapassou US$ 6 por galão pela primeira vez e acumula alta de 76% em um ano. A escalada encarece transportes, alimentos, agricultura, construção e produtos industrializados.
  • Guerra contra o Irã: o conflito elevou em US$ 112 bilhões os gastos dos americanos com combustíveis. Desse total, US$ 51 bilhões vieram do encarecimento do diesel.
  • Juros: diante da inflação persistente, o Federal Reserve elevou a taxa básica para o intervalo entre 3,75% e 4% ao ano, encarecendo financiamentos, hipotecas e empréstimos.
  • Emprego: o mercado de trabalho continua resistente. Os Estados Unidos criaram 162 mil vagas em agosto e o desemprego permaneceu em 4,1%.

O quadro não indica uma economia em recessão ou em colapso generalizado. O problema político de Trump está na vida cotidiana: os americanos ainda encontram emprego, mas pagam mais caro por combustíveis, alimentos, transportes, empréstimos e moradia.

Essa diferença entre os indicadores gerais e a situação percebida pelas famílias ajuda a explicar por que somente 17% aprovam a condução da economia pelo presidente. Os dados são da Reuters, do Departamento do Trabalho dos Estados Unidos e do Federal Reserve.

Tags

Gostou? Compartilhe!