Luiz Carlos Bordoni
A entrevista de Flávio Bolsonaro à jornalista Renata Lo Prete, na TV Globo, nesta sexta-feira (16), deixou uma impressão pouco favorável. O candidato demonstrou desenvoltura diante das câmeras, falou com segurança e procurou transmitir firmeza.
Entretanto, uma entrevista presidencial não é concurso de oratória. É oportunidade para esclarecer propostas, assumir compromissos e demonstrar capacidade de governar e foi justamente aí que Flávio deixou a desejar.
Em diversas oportunidades, quando questionado sobre assuntos específicos, desviou o foco para críticas ao presidente Lula. Atacar o adversário faz parte da disputa eleitoral, mas o eleitor precisa saber o que o candidato pretende fazer e não apenas ouvir o que pensa de seu concorrente.
Na economia, anunciou medidas de contenção de despesas, redução da máquina pública e manutenção de benefícios sociais. Entretanto, faltaram explicações convincentes sobre onde cortar, quanto economizar e como conciliar a redução de gastos com os compromissos assumidos.
Prometer equilíbrio fiscal é fácil. Explicar como alcançá-lo sem comprometer serviços públicos, aposentadorias, salários e programas sociais é outra história.
Também não pareceu satisfatória sua explicação sobre o financiamento do filme Dark Horse, relacionado à trajetória política de Jair Bolsonaro. A questão envolve relações com o empresário Daniel Vorcaro e merecia respostas mais objetivas. Não se trata de antecipar julgamentos, mas de exigir transparência de quem pretende ocupar a Presidência da República.
Outro ponto que despertou atenção foi sua posição sobre a reeleição presidencial. Flávio prometeu não disputar um segundo mandato, mesmo que a legislação continue permitindo. Defendeu também o fim da reeleição. É um compromisso relevante, mas que deveria vir acompanhado de maior clareza sobre a transição para um novo modelo e suas consequências políticas.
Houve, naturalmente, aspectos positivos. O candidato afirmou que respeitará o resultado das urnas, defendeu a manutenção da valorização do salário mínimo e declarou apoio às mudanças na jornada de trabalho. São manifestações importantes, que merecem ser registradas.
Mas, no conjunto, prevaleceu a impressão de que Flávio estava mais preparado para enfrentar Lula do que para explicar seu próprio projeto de governo.
É preciso reconhecer sua habilidade de comunicação. Sabe utilizar frases de efeito, explorar os pontos vulneráveis do adversário e dirigir-se ao eleitorado que já o apoia. Mas habilidade política não pode substituir conteúdo administrativo.
Na entrevista de Lula, também identifiquei omissões, contradições e promessas insuficientemente esclarecidas. O mesmo critério precisa valer para Flávio. Não estamos escolhendo o melhor entrevistado. Estamos escolhendo quem governará o Brasil.
A disputa está equilibrada. Os candidatos precisam conquistar os indecisos, não apenas entusiasmar seus seguidores.
Flávio teve a oportunidade de demonstrar que possui um projeto próprio, independente da imagem do pai e da rejeição a Lula. Poderia ter aproveitado melhor o espaço para apresentar respostas concretas aos problemas nacionais. Preferiu, em muitos momentos, o confronto político.
A avaliação é que Flávio não fez uma boa entrevista. Falou muito, atacou bastante, prometeu mudanças, mas explicou pouco.
Cabe aqui uma reflexão: o Brasil não precisa apenas de alguém capaz de vencer uma eleição. Precisa de alguém capaz de governar depois dela, porque, nas urnas, o eleitor escolhe um presidente, não um debatedor.



