O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou nesta segunda-feira (26) que foi intimado pela Polícia Federal a entregar seus passaportes e está proibido de deixar o Brasil por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal.
A medida ocorre em meio às apurações sobre possíveis vínculos financeiros entre o parlamentar e o advogado e empresário Willer Tomaz, dono de negócios milionários nos setores imobiliário, de aviação e de apostas online. Ambos negam irregularidades.
Segundo Flávio, a ordem teria sido motivada por uma declaração de seu irmão, Eduardo Bolsonaro, sugerindo que deixasse o país caso perdesse a eleição presidencial. O senador afirmou que nunca planejou sair do Brasil e que entregará os documentos. A reportagem da Folha de S.Paulo sobre a intimação não estabelece que a investigação envolvendo Willer tenha fundamentado a retenção dos passaportes.
Contra Tomaz, as medidas divulgadas são anteriores. Na sexta-feira (23), Moraes determinou a quebra de sigilos, o cancelamento dos passaportes, a suspensão de atividades empresariais e o bloqueio de bens até R$ 6 bilhões, conforme revelou a jornalista Natália Portinari, do UOL. O valor representa o limite da ordem judicial, e não um patrimônio já localizado ou comprovadamente pertencente ao advogado.
A trajetória empresarial de Willer chama atenção pela dimensão e pela diversidade. Segundo a Folha, ele passou de proprietário de uma loja de computadores em Taguatinga, em 1999, a empresário com atuação em radiodifusão, mineração, turismo, apostas online e advocacia especializada em precatórios. Sua rede de relações também alcança políticos de diferentes partidos.
No mercado imobiliário, um levantamento do jornal em escrituras identificou a compra de pelo menos 15 imóveis em Brasília, no Rio de Janeiro e em São Paulo, entre 2021 e 2026. As aquisições, realizadas pelo advogado ou pela WT Administração de Imóveis e Bens, somaram R$ 62 milhões. O montante corresponde às operações encontradas pela reportagem, sem representar necessariamente seu patrimônio total.
Uma dessas propriedades fica no Lago Sul, área nobre de Brasília. Comprada por R$ 12,5 milhões em março de 2024, teve a residência demolida para dar lugar a uma construção com três pavimentos e heliponto, com o Lago Paranoá ao fundo. Posteriormente, Willer adquiriu uma casa vizinha por R$ 6,1 milhões, parte financiada pelo Banco de Brasília. Procurada sobre as compras, sua assessoria informou à Folha que ele não responderia aos questionamentos.
A aproximação com Flávio começou em 2019, quando Tomaz atuou na defesa do então ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, conforme relatou a Folha. Nos anos seguintes, os dois fizeram viagens internacionais e estreitaram a convivência entre suas famílias. Documentos reunidos pelo jornal apontaram voos, endereços e parceiros comerciais em comum. Eles afirmam que mantêm uma relação de amizade.
Um dos principais elementos examinados pelos investigadores é a conta bancária da Alcazar Holdings, empresa registrada na Ilha da Madeira, em Portugal. Segundo trecho da decisão de Moraes reproduzido pelo UOL, Flávio figurava com perfil de usuário master, condição que lhe permitiria amplo acesso e gerenciamento. O documento menciona um pedido de exclusão desse acesso em maio de 2025. O registro, isoladamente, não comprova participação societária nem prática de crime.
A hipótese de que Flávio tenha sido sócio oculto de negócios ligados ao advogado permanece sob apuração. Por isso, a descrição dos dois como sócios não pode ser apresentada como fato estabelecido. O ponto central da investigação é esclarecer se os vínculos identificados correspondiam apenas à convivência pessoal ou também envolviam interesses financeiros compartilhados.
Outra frente envolve a RioPag, operadora de pagamentos de apostas credenciadas pela Loterj. Em e-mail de dezembro de 2024 obtido pela PF, Willer declarou ser sócio ou acionista de empresas vinculadas à companhia. A informação foi publicada por Malu Gaspar, de O Globo, e reproduzida pelo UOL. Sua assessoria reconheceu participação indireta por meio de uma cadeia de sociedades, mas afirmou que a estrutura era regular e havia sido declarada ao banco.
Relatórios do Coaf citados pela reportagem apontaram transferências de R$ 285,6 milhões da Embrasis para contas do advogado entre março de 2024 e março de 2026. A PF apura se operações fracionadas dificultaram a identificação da origem e do destino dos recursos. Esses valores são movimentações financeiras descritas nos relatórios, não uma quantia comprovadamente desviada. A defesa sustenta que Tomaz não integra a gestão da RioPag nem movimentou, como pessoa física, contas da operadora.
Os advogados de Willer também classificaram as medidas determinadas por Moraes como desproporcionais. Afirmaram que ele não tem relação com as fraudes no INSS investigadas pela Operação Sem Desconto, da qual se originaram diligências sobre seus negócios, e acusaram os investigadores de promover uma devassa indiscriminada em sua vida pessoal e profissional.
As apurações colocam sob exame a relação entre um empresário de negócios milionários e um senador que disputou a Presidência da República. O esclarecimento depende de identificar quem controlava as empresas, quem movimentava suas contas e quais operações justificaram os pagamentos. Até agora, os documentos divulgados sustentam a necessidade de investigação; a responsabilidade de cada envolvido ainda precisa ser demonstrada.


