Brasília, 05/11/2026

José Dirceu ironiza discurso bolsonarista após escândalo no Paraguai

247 – O ex-ministro da Casa Civil José Dirceu relacionou a crise política e financeira do Paraguai ao discurso de setores bolsonaristas que apontavam o país vizinho como alternativa econômica para brasileiros insatisfeitos com a situação nacional. Em publicação sobre a renúncia do presidente Santiago Peña, nesta quinta-feira (5), o petista destacou o colapso do banco digital Ueno, a perda de acesso de milhões de clientes às próprias contas e a pressão popular que levou à abertura de um processo de impeachment.

“Lembra quando bolsonarista dizia que, com o Lula, o Brasil ia quebrar e o negócio era fugir pro Paraguai, a ‘Suíça da América do Sul’? Essa semana quebrou o Ueno, banco ligado ao presidente Santiago Peña. Quase metade do país ficou sem acesso ao próprio dinheiro. Aposentado sem pensão, loja sem vender no cartão”, escreveu Dirceu na rede social X. “O povo foi pra rua, e com razão. 8 executivos do banco foram presos, o presidente do Banco Central caiu e todos os 80 deputados apoiavam o impeachment. Peña renunciou antes de ser derrubado”.

O Ueno Bank entrou em colapso após o Banco Central do Paraguai identificar problemas de solvência. O banco atendia aproximadamente 3 milhões de pessoas, cerca de 60% da população adulta, e administrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos. A paralisação do aplicativo, dos cartões e das transferências impediu que clientes movimentassem suas economias. Agências fecharam as portas e correntistas procuraram atendimento para tentar recuperar o dinheiro.

A crise também atingiu recursos de instituições públicas e fundos previdenciários. O Instituto de Previdência Social do Paraguai (IPS), responsável pela administração de benefícios de trabalhadores, mantinha aproximadamente US$ 355 milhões no banco, segundo informações divulgadas pela imprensa internacional.

A situação provocou manifestações em Assunção. Aposentados, trabalhadores, estudantes e correntistas foram às ruas cobrar a devolução dos recursos e responsabilização das autoridades envolvidas na fiscalização da instituição.

Oito executivos são presos e presidente do Banco Central deixa o cargo

As investigações sobre o colapso financeiro também alcançaram a direção do Ueno. O Ministério Público determinou a prisão de oito executivos e pessoas ligadas à instituição, enquanto outras 27 pessoas passaram a responder a acusações relacionadas a possíveis irregularidades financeiras.

Entre os investigados estão dirigentes e integrantes do grupo empresarial que controlava o banco. As autoridades apuram suspeitas de operações irregulares, fraude e movimentações destinadas a ocultar a situação patrimonial da instituição.

O presidente do Banco Central paraguaio, Carlos Carvallo, também deixou o cargo em meio à crise. Ele havia presidido anteriormente o Ueno e enfrentava questionamentos sobre a fiscalização da instituição financeira.

A ligação de Santiago Peña com o grupo controlador do banco ampliou a pressão política. O presidente manteve participação societária na holding até 2025, circunstância que passou a integrar os questionamentos da oposição sobre possíveis conflitos de interesse e a atuação do governo diante dos problemas financeiros.

Peña renuncia antes da conclusão do impeachment

A crise chegou ao governo quando parlamentares da oposição e integrantes dissidentes do Partido Colorado apresentaram uma denúncia contra Peña. As acusações envolviam supostas falhas na fiscalização do banco, conflitos de interesse e possíveis irregularidades na gestão de recursos públicos.

A pressão aumentou depois que o ex-presidente Horacio Cartes, principal liderança do Partido Colorado, retirou seu apoio ao chefe do Executivo. A mudança abriu espaço para que setores da própria base governista defendessem o afastamento do presidente.

Na quinta-feira (5), Peña anunciou sua renúncia antes da conclusão da votação sobre o afastamento dele. Pouco depois, a Câmara dos Deputados aprovou por 78 votos a zero o prosseguimento do processo, encaminhando a decisão ao Senado, mas o processo de impeachment foi barrado. O vice-presidente Pedro Alliana passou a ocupar a Presidência, conforme as regras constitucionais de sucessão.

“Suíça da América do Sul”

O termo “Suíça da América do Sul” foi usado nas últimas semanas em referência ao Paraguai após estatísticas apontarem aumento de pedidos de moradia dos brasileiros para o território paraguaio. A expressão repercutiu principalmente entre setores da elite econômica brasileira.

As buscas no Google Trends pelo termo “como morar no Paraguai” dispararam 1.700% cerca de 48 horas após o resultado da apuração do segundo da eleição presidencial brasileira em 25 de outubro, quando o presidente Lula (PT) venceu o senador Flávio Bolsonaro (PL) por 51,79% a 48,21%.

A procura pelo Paraguai no Google ocorreu, principalmente, em estados do Sul, região onde a família Bolsonaro e a extrema direita brasileira têm mais apoio. O diretor de Migrações do Paraguai, Jorge Kronawetter, no entanto, afirmou que os pedidos de residência para o seu país já registravam números históricos antes do pleito.

Os brasileiros são a principal nacionalidade entre os estrangeiros que buscam viver no Paraguai. Em 2025, receberam 23.526 autorizações de residência, cerca de 58% do total concedido no ano, segundo a Direção Nacional de Migrações (DNM) do Paraguai. A Argentina, segunda colocada, somou 4.366 concessões; a Alemanha, terceira, 1.652.

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