Brasília, 03/11/2026

Em Lisboa, manifestantes voltam ao Rossio em protesto por moradia

Manifestantes voltaram a montar tendas na Praça do Rossio, no centro de Lisboa, nesta terça-feira (3), em protesto contra a alta dos aluguéis e um projeto de lei que facilita despejos. A mobilização, que começou na Praça Dom João I, no Porto, em outubro, ganhou força na capital portuguesa e levou milhares de pessoas às ruas no sábado (31), segundo a Reuters.  

A volta ao Rossio ocorreu após o Tribunal Administrativo de Lisboa autorizar a ativista Renata Cambra a manter uma tenda na praça, inclusive durante a madrugada, até a votação final do Orçamento de 2027. Segundo a RTP e a rádio Renascença, a decisão se refere ao pedido individual da manifestante e prevê que o protesto seja compatibilizado com o Mercado de Natal, cuja abertura está prevista para 14 de novembro.  

Na madrugada de domingo (1º), a polícia desmontou mais de 50 tendas instaladas no Rossio após a marcha de sábado. A Reuters relatou que agentes usaram escudos e cassetetes para dispersar manifestantes que protegiam o acampamento. A polícia também retirou tendas no Porto. Na noite de segunda-feira (2), a assembleia do movimento em Lisboa decidiu aceitar um convite para se reunir com o presidente da República, informou a RTP.

Aluguel empurra moradores para a periferia

Os preços de compra de imóveis em Portugal mais que dobraram desde 2017, e os aluguéis de novos contratos quase dobraram no mesmo período, segundo a Reuters. O Banco de Portugal estima um déficit de 300 mil moradias no país, volume equivalente ao estoque habitacional de Lisboa.

A brasileira Priscila Valadão, que também tem cidadania portuguesa e é uma das porta-vozes do movimento, divide uma casa na região metropolitana de Lisboa. Em entrevista à Agência Brasil, ela disse que um apartamento sem quarto separado pode custar 1.500 euros por mês no centro, diante de um salário mínimo nacional de 920 euros.

Priscila também relata que brasileiros enfrentam obstáculos adicionais na busca por moradia, como recusas de proprietários ao perceberem o sotaque e exigências de até 12 meses de aluguel adiantado. Os brasileiros formam a maior comunidade estrangeira de Portugal, com 493 mil pessoas registradas, segundo dados da agência portuguesa de migração citados pela Agência Brasil. A contagem exclui quem também tem nacionalidade portuguesa.

Projeto de aluguel divide governo e manifestantes

Os manifestantes pedem a retirada do projeto que acelera despejos e elimina o limite de reajuste aplicável a novos contratos de imóveis já alugados anteriormente. A proposta passou pela primeira votação no Parlamento com a abstenção do Chega. O primeiro-ministro, Luís Montenegro, descartou retirar o texto, mas admitiu mudanças antes da votação final, segundo a Reuters.

O movimento também defende a ampliação da oferta de moradias públicas, a conversão de imóveis vazios em habitação popular e restrições à compra de imóveis por fundos de investimento. Montenegro afirma que o governo prevê investir 10 bilhões de euros no setor. O plano anunciado inclui a construção de 133 mil moradias, com financiamento do Orçamento português e do Banco Europeu de Investimento.

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