O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que não pretende interferir nas investigações da Polícia Federal envolvendo seu filho Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, defendeu a independência da instituição e disse que qualquer pessoa que tenha cometido irregularidades deve responder por seus atos. As declarações foram dadas em entrevista à Record exibida neste domingo (23) pelo Domingo Espetacular.
A entrevista, gravada no Palácio do Planalto, foi ao ar no mesmo horário em que a Band realizava o primeiro debate entre os candidatos à Presidência da República. Lula decidiu não participar do confronto, que acabou reunindo Ronaldo Caiado (PSD), Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante). Flávio Bolsonaro (PL) e Romeu Zema (Novo) também não compareceram.
Um dos momentos de maior repercussão da entrevista ocorreu quando Lula foi questionado sobre as investigações contra o filho. Lulinha é alvo de três frentes investigativas no Supremo Tribunal Federal envolvendo suspeitas de tráfico de influência e negócios relacionados ao governo federal. A defesa dele nega irregularidades.
Lula sustentou que o filho terá de apresentar sua defesa e provar que não cometeu crimes. Segundo o presidente, não haverá tratamento diferenciado pelo fato de Lulinha ser seu filho.
O petista também negou qualquer tentativa de blindagem e afirmou que a Polícia Federal tem liberdade para investigar. A declaração ocorre num momento em que as apurações envolvendo Lulinha ganharam espaço no debate eleitoral e passaram a ser exploradas pelos adversários do presidente.
As investigações tratam, entre outros pontos, de suspeitas envolvendo negociações de medicamentos à base de cannabis, interesses relacionados à Dataprev e possível acesso a informações sigilosas. A empresária Roberta Luchsinger e o ex-chefe de gabinete de Lula Marco Aurélio Santana Ribeiro também aparecem nas apurações.
Outro assunto de destaque foi a relação do governo brasileiro com os Estados Unidos. Lula avaliou positivamente seu contato direto com Donald Trump, embora tenha feito críticas à atuação de integrantes da administração norte-americana.
O presidente afirmou que a relação pessoal com Trump é “muito civilizada” e indicou considerar mais fácil conversar diretamente com o republicano do que lidar com integrantes do segundo escalão do governo dos Estados Unidos.
Lula e Trump haviam conversado por telefone na sexta-feira (21), durante cerca de uma hora e vinte minutos. Segundo o governo brasileiro, a conversa tratou principalmente das relações comerciais e das tarifas impostas aos produtos brasileiros.
Na entrevista, Lula afirmou que o diálogo já começou a produzir resultados e demonstrou expectativa de novos avanços. Ao mesmo tempo, criticou atitudes de integrantes do governo americano que, na avaliação dele, dificultam o entendimento entre os dois países.
O presidente voltou a defender que o Brasil mantenha uma relação soberana com os Estados Unidos e que divergências comerciais e políticas sejam resolvidas por meio da negociação.
Lula também aproveitou a entrevista para anunciar uma movimentação política importante no Congresso. Ele disse que pretende se reunir na quarta-feira (26) com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), para discutir algumas das principais pautas de interesse do governo.
Entre elas estão o fim definitivo da chamada “taxa das blusinhas”, a redução da jornada de trabalho na escala 6×1 e medidas relacionadas à segurança pública. Segundo Lula, essas votações poderão avançar rapidamente depois das negociações com o Congresso.
No caso das compras internacionais de até US$ 50, Lula afirmou que o fim da cobrança de 20% será anunciado na quarta-feira. A taxa está suspensa desde maio por medida provisória e poderia voltar a ser cobrada caso o Congresso não aprove a mudança.
O presidente também reafirmou o interesse do governo em acabar com a escala de trabalho 6×1, tema que ganhou peso na agenda política e eleitoral.
Na segurança pública, Lula defendeu a criação de um Ministério da Segurança Pública, separando a área da atual estrutura do Ministério da Justiça.
Segundo ele, o governo federal precisa ampliar sua participação na coordenação do combate ao crime organizado, embora os estados continuem tendo papel fundamental na segurança.
O presidente também dedicou parte da entrevista à violência contra as mulheres e defendeu um pacto nacional contra o feminicídio.
Ao abordar o assunto, Lula afirmou que o casamento não dá ao homem qualquer espécie de propriedade sobre a mulher e defendeu uma mudança cultural no país para enfrentar a violência doméstica. A questão, segundo ele, não pode ser tratada apenas como problema policial.
A eleição presidencial também ocupou espaço importante na conversa.
Lula criticou o nível atual da política brasileira e afirmou sentir “saudade” das disputas eleitorais contra adversários do passado, incluindo candidatos do PSDB.
Ele citou políticos com quem disputou eleições ou conviveu politicamente, como Fernando Henrique Cardoso, José Serra e Geraldo Alckmin, além de recordar a eleição de 1989, que reuniu nomes como Leonel Brizola e Ulysses Guimarães.
Na avaliação do presidente, houve uma deterioração da qualidade do debate político.
Lula criticou principalmente candidatos e políticos que, segundo ele, estão mais interessados em produzir frases de efeito, vídeos curtos e conteúdo capaz de “lacrar” nas redes sociais do que em discutir projetos para o país.
O presidente rejeitou ainda a ideia de que existam permanentemente “dois Brasis” irreconciliáveis. Para ele, a forte polarização política é resultado de um determinado momento histórico e poderá ser superada.
A fala ocorreu justamente enquanto Lula era alvo de críticas no debate da Band. Mesmo ausente, o presidente acabou se tornando um dos principais personagens do confronto entre os candidatos que compareceram à emissora.
Renan Santos e Ronaldo Caiado criticaram duramente a decisão do petista de não participar. Augusto Cury também lamentou as ausências, embora tenha divergido do tom mais agressivo adotado por Renan.
Na Record, Lula também falou de economia e procurou defender as medidas adotadas pelo governo para ampliar renda e consumo.
Outro assunto, bem mais leve, foi o futebol. Torcedor declarado do Corinthians, Lula comentou a situação financeira dos clubes brasileiros e disse ter sugerido à Caixa Econômica Federal a criação de uma espécie de “Desenrola” para as equipes endividadas.
Segundo o presidente, muitos clubes enfrentam dificuldades financeiras provocadas por administrações deficientes e pelo acúmulo de dívidas. A proposta seria criar condições para uma renegociação, nos moldes do programa utilizado para consumidores endividados.
Ao longo da entrevista, Lula procurou combinar a defesa de seu governo com uma postura de candidato à reeleição.
Nas questões mais delicadas, principalmente as investigações envolvendo Lulinha, buscou afastar qualquer suspeita de interferência presidencial e enfatizou a autonomia da Polícia Federal.
Na política externa, tentou mostrar que a relação pessoal construída com Trump pode funcionar como caminho para reduzir as tensões entre Brasil e Estados Unidos.
Já na política interna, sinalizou que pretende usar a retomada do diálogo com Davi Alcolumbre para destravar propostas com forte apelo popular às vésperas da eleição, principalmente o fim da taxa sobre pequenas compras internacionais e mudanças na jornada 6×1.
A entrevista também serviu para Lula marcar posição sobre a própria campanha. Em vez de participar do debate da Band, onde seria alvo direto dos adversários, o presidente ocupou praticamente o mesmo horário em outra emissora, numa conversa individual em que pôde tratar de governo, investigações, eleição e política externa.
O contraste acabou produzindo duas imagens distintas da campanha na noite de domingo: enquanto Caiado, Renan e Cury confrontavam propostas e criticavam os ausentes na Band, Lula utilizava a Record para defender o governo, responder sobre o filho e apresentar algumas das bandeiras que pretende levar para a reta decisiva da disputa presidencial.


